sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Maranhão: Um lindo lençol de ceda, mas curto.

Por-do-sol na praia do Araçagi
Uma frase popular exprime bem a visita que fiz ao estado do Maranhão no mês de julho. Minha passagem por lá deixou comigo a impressão da história do cobertor curto: Cobre a cabeça, mas descobre os pés. Caminhando pelos lençóis maranhenses, pela Capital São Luis e pela cidade histórica de Alcântara, pude vivenciar uma das experiências de viajem das mais bacanas que já tive e, ao mesmo tempo, das mais decepcionantes. Mas antes de fazer observações nesse breve diário de viajem, devo antes ressaltar a beleza de um estado enorme, com natureza exuberante, povo verdadeiro e espirituoso e história rica e interessante.

  Ao descer do aeroporto, peguei um ônibus para o centro da cidade, onde pegaria outro para chegar ao meu destino. Como nordestino que sou, com orgulho, já estava de certa forma habituado a ver as desigualdades gritantes que se mostram nessa parte do país. Diferente do Sul do Brasil, os problemas comuns aos brasileiros no Nordeste têm menos “maquiagem”. Ao mesmo tempo em que saltava aos olhos a herança do Brasil Colônia e o abismo social decorrente da mesma, existe um ar muito grande de veracidade humana. Nos olhos do povo, na conduta e maneira de lidar com o mundo, sempre há um ar de humanidade, sinceridade e desapego por coisas menores que, em muitos casos, é inexistente nos sulistas. Parece que aparência é algo mais difícil de manter no nordeste. A condição pobre e de desamparo com que a grande maioria do povo vive por lá lhes deu uma força de vivacidade que é muito mais rara de se encontrar por aqui. O Maranhense não é diferente nesse ponto. Vive mais leve apesar do peso grande que tem que carregar.

  Logo em seguida à minha chagada ao estado, embarquei em um ônibus rumo ao parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. São cerca de 4 horas de viajem até a cidade de apoio ao parque, Barreirinhas. De lá saem às excursões para os Lençóis e é na cidade que fica grande parte das pousadas e serviços de atendimento ao turista. Em Barreirinhas as motos não têm placa e tão pouco se vê policiamento ou sinalização, mas ao mesmo tempo a minha sensação foi a de que nada disso é necessário por lá. Os lençóis são uma maravilha da natureza com a força de fazer com que eu ponderasse sobre a humildade. Dá pra sentir o quanto somos pequenos quando se chega lá. Fazer essa reflexão me levou para uma viajem íntima que me fez chorar ao ver o sol se pondo atrás das nuvens. Por tantas vezes somos por demais arrogantes, achando que entendemos os propósitos do mundo e que sabemos o que é correto. Por muitas vezes nos enganamos. Foi lá que revivi uma sensação de liberdade e felicidade, reconhecendo que fazer o melhor de mim nessa vida é mais do que muitas vezes achei que devia fazer. Bons valores, eu pensava... Chega de conflitos, pensava. Chega de revolta. A paz no meu coração foi algo aconchegante, como colo de mãe. Me senti coberto dos pés a cabeça pelos lençóis, nos braços de Deus.

São Luís: A Sarneylandia desvairada

Busto do Sarney exibido em uma casa histórica no centro
  Na chegada a São Luís ouvi de um residente. - Tem uma coisa boa e uma coisa ruim no Maranhão: A ruim são os Sarney, a boa é ser da família Sarney. Que o contexto político do Maranhão é conturbado e sinistro, que o domínio da família Sarney é um suplício, todo mundo sabe. Mas confesso que não estava tão preparado assim para testemunhar a realidade maranhense. A coisa se mostrou muito pior do que eu imaginava. Depois de voltar já começo a achar Santa Catarina e Florianópolis primeiro mundo, assim como acham a maioria dos nordestinos, mesmo isso sendo uma mentira. Pra começar a “marca” da família Sarney está por toda parte. É bairro Vila Sarney, ponte José Sarney, escola com nome da mãe, do pai, do tio do Sarney... Inclusive ouvi histórias de áreas invadidas onde a própria população batizou com o nome da família na expectativa de algum benefício, dado o contexto de dominação e dependência política do estado. O cenário em São Luís é contraditório e desolador. Mesmo com um dos maiores centros históricos do país e com um mercado turístico com grande atividade, as construções da capital do estado estão em condições de abandono e precariedade funcional.
Rua Feliz - Centro histórico de São Luis
Grande parte delas está praticamente em ruínas, além da total falta de higiene no local. Nunca em minha vida tinha visto tanto esgoto a céu aberto. Pelas ruas de grande parte da cidade, não só nas regiões mais pobres, o cheiro de esgoto toma conta. São Luís tem mais de 1 milhão de habitantes e o esgoto da cidade sempre foi jogado para o mar, lagoa e rios. A lagoa da Jansem, um dos pontos turísticos da cidade, fede à distância, enquanto nas margens pessoas comem e bebem em bares e restaurantes. Problemas estruturais não faltam na cidade. Ruas sem meio fio, com iluminação pela metade, ônibus caindo aos pedaços, lixo pelas ruas... Foi à parte da viajem mais triste, as constatações. Do outro lado da Ponte José Sarney, na parte da cidade que se desenvolveu nos últimos anos, fiquei chocado com os presos das coisas. Apartamentos estilo classe média em Florianópolis custam milhões, sim, milhões de Reais. Os aluguéis ficam na casa dos milhares. A parte “rica” da cidade, apesar dos presos exorbitantes, e tão mal cuidada quanto à parte pobre. A especulação imobiliária na região chegou com força tal que extrapolou os limites do bom senso. Nem mesmo o custo em Balneário Camboriú, por exemplo, se compara. A analogia não podia ser melhor, do outro lado da ponte José Sarney existe outra cidade.
Casa em ruínas. Umas das muitas no centro.
   A forma indolente, descompromissada e irresponsável como o povo maranhense é tratado pelo domínio político refletiu na própria construção social desse mesmo povo. Os serviços na cidade são muito ruins. Minha impressão foi a de uma má vontade generalizada. Ao pedir o cardápio em um restaurante na praia, a garçonete me olhou com uma cara de desdém que me fez perder o apetite. Não quero aqui dar uma de sulista exigente, não é isso. É que lá foi demais. Já viajei por quase todo o Nordeste e nunca tinha sido tão mal atendido. Não foram duas nem três vezes que me deparei com esse comportamento. Quando precisava pedir informação de algo sempre tinha dificuldade de consegui-la, pela falta de vontade de dar auxílio das pessoas. Na rodoviária, quase perco o ônibus pra Barreirinhas porque as duas atendentes – duas! – conversavam enquanto a fila aumentava. Com apenas duas outras pessoas na minha frente na fila, demorei quase 30 minutos pra comprar a passagem. Até no trânsito ficou clara a forma displicente com que o maranhense leva o cotidiano. Com ruas e avenidas esburacadas, mesmo com o asfalto novo, e sem sinalização, presenciei mais de 7 batidas de carro pela cidade. E pelo que fiquei sabendo isso é bem comum. Tipo bate-bate de parque de diversão. Falta de mão de obra qualificada é um problema em São Luís, e a grande maioria da população vive sem acesso a serviços essenciais. A cidade de mais de um milhão de habitantes tem apenas 2 hospitais. Não é a toa que o Maranhão ocupa um dos últimos lugares nos Índices de Desenvolvimento Humano do Brasil. Mas minha reflexão aqui não é taxativa e recriminatória, e contextual. Apesar da forma como o povo se porta por lá, não sendo a mais cortez ou atenciosa, há de levar em consideração a história de desamparo e descaso a que foram submetidos. E o Sarney ainda se diz orgulhoso do seu estado e do que fez com ele.
  
A Jamaica brasileira


No farol da preguiça, em Barreirinhas, um barqueiro Rasta ostenta as bandeiras do Brasil e da Jamaica no seu barco.  As semelhanças entre nossos irmãos caribenhos e os maranhenses são enormes... Entendi o título do estado. O Maranhão, assim como a Jamaica, é um grande gueto, com desiguladades sociais gritantes. Em plena campanha eleitoral, os jigles dos políticos são ao ritmo do reggae. Nas ruas, dentro dos carros, as pessoas escutam versões de músicas diversas feitas para o reggae. Em Alcântara, Bob Marley está pintado na parede do restaurante, assim como nas ruas de São Luís ele é figura sempre prsente. O Leão de Judá aparece grafitado pelo centro histórico. Nas ruas existe a Sapataria Kingston, lojas de roupa com motivos Rasta, reggae nas casas na tarde de domingo... Foi em um sábado a noite que comprovei isso. No palco, Eric Donaldson, Jamaicano famoso tocava, em baixo mais de cem pessoas dançavam agarradinhas o som do Jamaicano, em um pequeno bar na beira da praia. Pra mim que sou fã da coisa, uma noite na memória ficou. A Tribo de Jah reçoava na minha cabeça no fim da festa, mais um dia se levanta na Jamaica Brasileira.   

Considerações

Lindo boi ornamentado - Festas de julho
Mesmo com tantos problemas – iguais aos nossos aqui, mas em uma escala muito maior – o Maranhão é um estado incrível, cheio de beleza, franqueza e presteza. Talvez não naquilo que nos acostumamos na sociedade de consumo capitalista (ser bem servido, atendido, bajulado, aliciado, ser esteticamente bem encaixado), mas principalmente em relação à construção humana no contexto brasileiro. Apesar de tudo, as pessoas lá levam uma vida mais real, menos ilusória, mais prática. Exigir consciência política, atitude cidadã e postura ideológica de um povo que muitas vezes não sabe o que vai comer amanhã é tão hipócrita e autoritário quanto os discursos dos Sarney. A estratégia do desamparo manteve no poder esse senhor de 80 anos e sua família. A filha, seguidora número um da carreira do pai, continua no governo após um “golpe”, e agora concorre novamente ao cargo posando nas fotos ao lado de Lula e Dilma Russef. Nos carros a foto da tríade predomina no estado. Na minha ida fiquei com um gosto doce de liberdade ao mesmo tempo em que levava um amargo da opressão. Hoje, de volta a Florianópolis, faço uma reflexão mais crítica em relação a forma do comportamento e atuação social da população dessa ilha. Porque a ilha de lá, no nordeste, é tão bela quanto a nossa, mas a vida lá me pareceu mais viva, mais real. Numa realidade social com tanta dualidade, tanta contradição, nunca é possível reconhecer só a beleza, sem saber ver a feiúra. Parece que nossa noção do belo precisa de um paradigma feio pra se tornar realidade. Trouxe comigo uma bolsa de palha de Buriti, árvore nativa do Maranhão, pra dar de presente, mas trouxe algo muito mais substancial, trouxe comigo o gosto doce e amargo de ser brasileiro.

Osíris Duarte
Mte/PB 02538 JP

( As imagens são de minha autoria e sua livre publicação é permitida se devidamente creditadas)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Andando pelo passado tão presente

O continente de Alcântara, como se refere o guia da marinha do Brasil e nativo da vila, Juca, é muito maior do eu imaginava. São cerca de 40 mil habitantes e diversas comunidades, entre elas várias quilombólas, além da base de lançamento de foguetes, com cerca de 500 funcionários, antes tocada por estadunidenses e, agora, por uma parceria entre vários países. Depois de mais de meia hora de barco é possível ver de longe a grande ilha, que se estende até perder de vista. Caminhar pelas ruas de Alcântara é uma viajem no tempo inesquecível. É como se estivesse novamente no Brasil colônia - será que saímos? - respirando um ar que é familiar a qualquer brasileiro. Entre igrejas construídas pelos escravos e para os escravos, e outras feitas para os senhores, o retrato do Brasil de Dom Pedro está a cada esquina. Toda a cidade e preservada, muito devido ao número de estrangeiros que adquiriram imóveis e os restauraram. A Fundação Roberto Marinho é outra que investiu em Alcântara, tudo pelas novelas da Globo, claro. A emissora possui uma casa na vila, onde grava miniséries e novelas. Abaixo vão algumas fotos das ruínas do mercado de escravos, das igrejas feitas com pedra de minério de ferro e óleo de baleia, do casariu centenário, de um dos dois únicos pelourinhos originais no país, além de belas paisagens por entre portas e janelas em ruínas. Um passeio do mais bacanas que já fiz pela história do Brasil. 

Fatos e Fotos: Alcântara - MA


                                  
As fotos aqui publicadas são de minha autoria sendo a reprodução permitida desde que se respeite os direitos autorais, creditando devidamente o material.

Osíris Duarte - Jornalista Mte/PB 02538 JP

domingo, 1 de agosto de 2010

Os lençóis que me cobriram com carinho

Foi me sentindo parte de algo maior que encontrei algo que não pode ser dito em palavras. Essa parte ínfima que sou eu, indivíduo humano do planeta Terra, reconheceu humildemente a pequenês diante da obra divina. Os lençóis me cobriram como minha mãe ao me botar para dormir. Me encheram de alegria e felicidade, na busca por verdades nessa vida tão ilusória. Barreirinhas é a cidade próxima ao parque nacional dos lençóis, mas para chegar aos grandes, são necessários mais 11 quilômetros de uma emocionante viajem de Toyota Bandeirante 4x4! As fotos ai em baixo mostram os grandes e os pequenos lençóis, além do passeio de barco até Caburé, pelo Rio Preguiça, até o farol da Marinha, com uma linda vista da região. O Maranhão tem se mostrado um estado com contrastes que me surpreendem todos os dias. Nessa viajem, muitas histórias vão se somando, e assim que puder pretendo compartilha-las aqui, no palavrão. Agosto estou de volta, com um grande sorriso e uma vontade renovada, na busca humilde por ir além das palavras, no pulsar de meu coração. 

Fatos e Fotos - Lençóis Maranhenses


As fotos aqui publicadas são de minha autoria sendo a reprodução permitida desde que se respeite os direitos autorais, creditando devidamente o material.
Osíris Duarte - Jornalista Mte/PB 02538 JP

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O difícil é ser como querem que eu seja

Nunca quis pintar uma imagem de bom moço. Em casa aprendi a ser educado com o outro, a tratá-lo com simpatia e cortesia se quisesse ser tratado da mesma forma. Mas educação não nos exime da nossa condição humana. Apesar de me esforçar para ser mais compreensivo e tolerante, nem sempre isso é possível, não pelo menos de acordo com as expectativas dos outros. É que cada um espera um tratamento condizente com aquilo que considera em si. Às vezes nossas carências, vaidade ou opinião fazem com que esperemos um tratamento especial, uma atenção diferenciada, desconsiderando o universo pessoal daquele que dispensa tal trato especial conosco. O fato é que não é sempre que estou a fim de papo ou mesmo disposto a abrir mão de nuances da minha vida em detrimento da manutenção de uma boa imagem social. É tão difícil assim entender quando não queremos partilhar coisas da vida com os outros? Será que somos obrigados a nos relacionar de forma próxima com todos, mesmo quando nosso estado de espírito não corresponde ao momento social?

 Dia desses ouvi que era chato porque não quis comer carne. Sou vegetariano há quase dois anos e, apesar de não fazer isso com os carnívoros, tenho que ficar ouvindo periodicamente que sou fresco e chato. Pois eu digo: Mais chato é quem quer que eu seja quem eu não sou. Mais fresco é quem pensa que o que pensa é melhor pra todos. Fiz uma escolha que tem implicações unicamente na minha vida e, portanto, me sinto no direito de não ceder em prol de nenhuma convenção social hipócrita. O mesmo digo daqueles que nos julgam pela presença ou ausência na vida cotidiana social. A complexidade humana carregada um caminhão de pontos conflitantes e misteriosos. Como seres complexos que somos, formados por pensamentos, sentimentos, intuição, temperamento e tantas outras características insólitas, nem sempre estamos firmes naquilo que vivemos. Lidar com tal complexidade às vezes exige que nos retiremos um pouco do contexto. Tem dias que estamos mais quietos, outros mais falantes. Existem períodos de sociabilidade mais intensa, de produção mais volumosa, de preguiça... E mesmo com essa condição temos que lidar com a exigência de uma sociedade que preconiza a exposição como sucesso.

  Se todos nós vivenciamos tal complexidade de nosso ser porque não conseguimos, às vezes, pelo menos, compreender o outro? Queremos ser compreendidos e assistidos de todas as formas (afetiva, intelectualmente, espiritualmente...), mas não nos predispomos a fazer o mesmo com o outro. Compreenda-me, ampare-me, afague-me, mas não me peça pra fazer o mesmo por você. Sabe de uma coisa, cansei! Sempre acreditei naquilo que é espontâneo e natural, e é isso que desperta em mim um quê de verdade nesse mundo de ilusão. É como aquele amigo que sempre lhe questiona: Poxa, se nunca vem em casa? Vê se aparece? Bom... Geralmente a distância é a mesma, porque então eu que tenho que levar uma chamada como se eu fosse o mais dos desnaturados dos amigos? É bom sim se sentir querido e amado, mas isso só parece sincero quando é livre. Quando as cobranças aparecem, me parece que outros interesses estão em jogo do que o bem querer ao próximo.

 Venho aqui pedir encarecidamente que antes de julgar o próximo julguem a si mesmos. Que para que sejamos compreendidos é necessário que compreendamos o outro. Que solidariedade não se cobra nem se exige, se é. E que antes de me achar difícil lembre que eu nunca disse que eu era fácil, até porque o meu lidar comigo quase sempre não é.


Osíris Duarte - Jornalista

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Quando o “menor” não é meu

Por Elaine Tavares - Jornalista

A cidade de Florianópolis, no sul do Brasil, está estarrecida diante de algumas informações que chegam aos correios eletrônicos como se fosse um rastilho de pólvora. Uma garota de 13 anos, de um colégio de gente endinheirada, teria sido estuprada por colegas, praticamente da mesma idade. Um dos garotos seria filho de conhecido empresário, outro de um delegado. Uma carta de mães indignadas – que o colégio nega que sejam de lá – descreve a atrocidade com riqueza de detalhes. Nenhuma informação saíra na imprensa porque, dizem as mães, um dos estupradores é filho do dono de uma rede de comunicação. O jornal Diário Catarinense deu uma nota no dia 30 de junho, lacônica, divulgando o ocorrido, mas, alertando para o fato de que como todos são menores de idade o inquérito segue sob segredo de justiça. Nenhum nome, nenhuma informação a mais.

Muito bem. Corretíssima nota do DC. Quando são menores os envolvidos em crimes, não se divulgam nomes, não se publicam fotos. E mesmo se são maiores e não há flagrante, não se poderia divulgar porque haveria apenas uma presunção de crime. Os nomes só poderiam ser divulgados depois de as pessoas terem sido julgadas. E as fotos, só publicadas com a autorização do vivente. Mas, claro, isso só vale para os que conhecem a lei, no caso, os ricos, que podem ter bons advogados. Com os pobres, tudo é liberado.

Seria bom que o DC agisse assim em todos os casos que envolvessem adolescentes infratores. Seria bom que os jornais preservassem o direito dos menores, impedindo assim que eles ficassem marcados para o resto da vida por conta de alguma infração cometida nesta idade “tão problemática”. Mas ocorre que este debate está eivado de um recorte de classe. Quando são os pobres que cometem crimes, o que está implícito nos informes que nos chegam via TV ou jornal é de só poderiam acabar assim. “Não tem educação, não tem chances, estão fadados ao fracasso”. Como se isso fosse coisa natural. E não é assim. O prefeito Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, chegou ao absurdo de chamar as mulheres pobres e negras que vivem nos morros de “fábricas de marginal” porque, afinal, é de seus ventres que saem os filhos da pobreza.

Mas e quando quem comete um crime é um rico? Como a coisa anda? A primeira tese que se levanta é que a criatura deve ter algum problema mental. Vide o caso da loira que matou os pais, num fato que ficou semanas no ar. Pois é assim. Já se é um pé rapado quem mata os pais, aí está certo. É quase óbvio, é “da sua natureza”. Um juiz que rouba o INSS é protegido pela polícia federal. Jovens que matam um homossexual não tem seus nomes revelados para não terem seu futuro estragado. Não são menores, só ricos. Os canalhas que falsificam licenças ambientais, porque são empresários freqüentados por artistas e governadores são escoltados por agentes públicos, sem autorização para fotos. Depois, quando são soltos seguem suas vidas entre champanhes e festas. Nada os marca para sempre. Nada.

Agora este caso da garota violentada é mais um para esta triste estatística. Ficará em segredo de justiça para não manchar a vida dos garotos. Certamente haverão de se defender teses sobre graves problemas que teriam estes adolescentes, porque só isso poderia explicar tamanha infâmia, tamanha crueldade. Não é da natureza de jovens bem-nascidos cometerem atrocidades. Vamos lembrar os que queimaram o índio Galdino, hoje vivendo muito bem, em cargos públicos até. “Foi uma fatalidade”.

Ah! A hipocrisia burguesa! Todos os dias, em cada lugar deste mundão de deus os ricos estão violentando as gentes. De todas as formas. Parece ser da natureza de quem domina permanecer na impunidade. Por isso eles criam exércitos, milícias, leis, justiça. Porque estas coisas existem para eles, para proteção deles. É por isso que os gritos de “justiça, justiça” dos que estão à margem, fora do centro de poder, se perdem no vazio. A justiça é uma invenção dos poderosos para sua própria proteção. Só a eles serve. Vez em quando se dá uma vitória a um pobre para que o povo tenha a ilusão de que é possível confiar no sistema. Bobagem! Lei não é sinônimo de justiça.

Dou um exemplo de uma comunidade indígena dos Andes. Lá, se alguém viola o código da comunidade, é punido exemplarmente. O coletivo não pode ser maculado pela ação individual. A comunidade depende da harmonia. Se um homem mata outro ele não vai preso. Ele é obrigado a sustentar por toda a vida a sua família e a do outro que ele matou, vivendo essa vergonha para sempre. Porque um homem morto é um braço a menos na construção do coletivo. São regras simples, de comunidades simples.

No mundo capitalista a justiça é individual. Um homem morto é só um homem morto num universo de milhares de braços sobrantes. Uma peça, que é trocada, sem dor. Não há uma quebra no equilíbrio, porque é cada um por si. Por isso às famílias agredidas só resta chorar.

É o que ocorre agora, em Florianópolis, neste triste caso. A família da garota violada buscará justiça. Achará? O que devolve uma inocência perdida? O que recupera toda essa dor de nunca mais poder confiar em alguém? Como se retoma o equilíbrio numa sociedade medida pelo individualismo e pelo consumo? Quem se importa com essa dor? Haverá uma indignação momentânea e o caso cairá no esquecimento, como sempre é numa sociedade eternamente a espera do próximo espetáculo? Num estado dominado por um monopólio de comunicação, qual será a repercussão disso tudo?

Este é o estado da coisa. E deve ser pensado no seu todo. Os finos salões da burguesia também são capazes das coisas mais sórdidas. E não é por problema mental não. Só que aos poderosos tudo parece permitido. Até quando? Até que as gentes mudem este panorama, construindo uma outra sociedade que não esta, dominada pelo dinheiro de alguns. Porque hoje, aqui, neste modo de organizar a vida, a burguesia, por exemplo, pede histericamente a redução da idade penal para conter a violência cada dia maior. Mas, não é para todos. Isso vale apenas para quando o “menor” não é seu.

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