Por Elaine Tavares - Jornalista
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O filósofo Enrique Dussel tem uma definição de “comunidade” que é sempre bom a gente lembrar. Ele entende que quando se fala essa palavra não se está querendo dizer todas as pessoas de um determinado espaço geográfico, mas sim aquelas que num espaço geográfico participam ativamente da vida deste lugar. É por isso que - neste episódio envolvendo o show do Ben Harper/prefeitura/ Skol - quando se fala em comunidades do sul da ilha há que se ter bem claro que estamos falando das gentes que, vivendo no sul, se encontram, se mobilizam e atuam propositivamente dentro destes espaços, seja nas lutas pela infra-estrutura ou nas lutas macro-políticas como as da construção do Plano Diretor.
Assim, durante toda a última semana a comunidade organizada do sul da ilha esteve envolvida com a discussão da realização do mega-show do Ben Harper na praia do Campeche. Entendiam as entidades que toda a questão havia sido mal conduzida. A Skol realizou uma campanha via internet, sem consultar qualquer órgão público da cidade. Não houve articulação com a comunidade e muito menos foram seguidos os trâmites legais para a realização de um evento desta natureza. E aí é bom que se diga. O lugar onde agora será realizado o show é particular sim, mas este não era o local original do evento. Era a praia e a área de preservação permanente, espaços públicos e de proteção. Foi a luta da comunidade que acabou forçando a Skol e o proprietário do bar onde será feito o show a buscarem a legalização do evento.
Durante a queda de braço entre os grandes empreendimentos e a comunidade organizada do sul da ilha muita coisa foi dita. Nem vou falar das barbaridades da imprensa – principalmente o grupo RBS – porque todos sabem quais são os interesses desta gente. Seu negócio é o lucro. Não importa que para isso seja preciso destruir o modo de vida de toda uma comunidade. Mas, dentre as declarações, a que mais causou estupor foi a do proprietário do “Point do Riozinho”, o bar onde será realizado o show. Ele disse, num programa de rádio da CBN, que estava fazendo um bem para o Campeche e que as pessoas que estavam contra o show apenas defendiam interesses particulares. Ou seja, ele inverteu o assunto. A comunidade que desde há anos luta para manter seu modo de vida diante dos ataques do capitalismo e do progresso a qualquer preço foi acusada de defender “interesses pessoais”. E ele, um empresário que só visa o próprio lucro foi saudado como o benfeitor do bairro. Inversão total de valores.
Dois pesos e duas medidas
O presidente da Amocam, Ataíde Silva, lembra que o bar “Point do Riozinho” legalmente está na mesma situação que estava o Bar do Chico, recentemente derrubado pela prefeitura com o aval do “verde” Gerson Basso. Ou seja, o bar está localizado nos 33 metros da área de marinha, exatamente como estava o Bar do Chico. E só funciona porque a associação comunitária conseguiu garantir um ajustamento de conduta para que o empreendimento pudesse continuar por ali, exatamente como iria ser feito com o bar do Chico. Mas, o bar do Chico significava a preservação de um Campeche diferente, de vida simples, de natureza preservada, de eventos populares, de preservação da cultura local, de política, de luta comunitária. Por isso foi ao chão. Já o Point do Riozinho é a representação de um outro modo de vida, do consumo, do mega-show, da mercantilização da praia, da natureza tornada objeto de consumo, da festa privatista. É por isso que a comunidade se levantou em luta. Porque as gentes organizadas não querem isso para o Campeche nem para o sul da ilha.
Mas, a prefeitura mostrou muito bem qual é o seu plano para o sul. Desde o ano passado que pipocam por todas as comunidades os grandes empreendimentos imobiliários. Esgotados os recursos do norte da ilha, os abutres agora voejam pela região do sul da ilha. Como uma nuvem de gafanhotos as empreiteiras estão devastando as áreas e fincando prédios, sem qualquer preocupação com o ambiente ou com a sustentabilidade. O comportamento da municipalidade diante da investida da Skol mostra bem o quanto as comunidades estão desprotegidas. Sem qualquer respeito pela decisão da gente organizada do sul da ilha, a prefeitura, na pessoa do vice-prefeito João Batista Nunes, passou por cima de todas as regras para garantir que a Skol realizasse o show na praia do Campeche.
Para se ter uma idéia, se a comunidade desejasse fazer uma quermesse numa rua qualquer, ela teria de encaminhar uma série de ofícios, para uma série de órgãos, respeitando rigorosamente os prazos de antecipação, em torno de 20 dias. Sem isso, não há quermesse. Pois a Skol decidiu fazer um show na praia do Campeche, não consultou ninguém, não mandou ofício nenhum e, quando a comunidade foi para a rua questionar esse fato, eles então procuraram a prefeitura, com medo de que seu evento gorasse. E a prefeitura, numa atitude servil, desconsiderou qualquer prazo, qualquer trâmite legal e liberou todas as licenças. Por quê? Porque a Skol é uma grande empresa e tem muito dinheiro para dar.
A surpresa da noite
Nesta quinta-feira, dia 3, depois de receber o aviso de que a Câmara de Vereadores havia suspendido a sessão ordinária - onde as lideranças do sul da ilha iriam manifestar sua indignação e cobrar uma posição dos vereadores diante do absurdo praticado - a comunidade decidiu realizar uma reunião no Clube Catalina, Campeche. A idéia era fazer uma avaliação de todo o movimento e discutir novas ações para forçar o governo municipal a dar sequência ao processo do plano diretor, parado depois de um golpe efetuado pela municipalidade.
Durante mais de duas horas as pessoas falaram e avaliaram a luta. No geral todos entenderam como muito positiva a retomada do debate e da ação para a consolidação do Plano Diretor construído coletivamente que enfatiza e defende uma vocação para o sul da ilha. Durante quatro anos, as comunidades, em representativas reuniões, discutiram e deliberaram: a vocação do sul não é a do mega-turismo predador como o que destruiu o norte da ilha. Este é um espaço de moradia, de vida e também de turismo, mas um turismo que respeita o modo de vida das gentes que aqui decidiram fazer sua morada. Alguns jornalistas de boca alugada insistem em ridicularizar este jeito de viver, mas isso nada mais é do que a boa e velha pregação ideológica. Tal como dizia Marx, ideologia é o encobrimento da verdade. Assim, estes sacerdotes do capital jogam para a cidade a idéia de quem que está em luta são apenas “gatos pingados”, “bolivarianos”, “hippies”, “desocupados”, ou seja, gente inútil que não quer o progresso. Eles não, são os gerentes do progresso, os vassalos do capital, os que querem o “desenvolvimento”. Ora, a única coisa que se desenvolve nesta lógica predadora é o bolso de alguns.
Pois a surpresa da noite foi a chegada do vice-prefeito João Batista Nunes quando soaram as dez badaladas. Dando uma de bom moço ele disse que foi à comunidade para informar que tudo o que havia sido reivindicado estava providenciado. Todas as licenças haviam sido dadas e o evento iria acontecer sem qualquer problema de segurança, de transtorno ou de depredação ambiental. Ainda teve o desplante de dizer que, graças ao movimento feito, a prefeitura tinha tomado conhecimento do evento e, com isso, estava podendo oferecer toda a estrutura. Algumas pessoas presentes à reunião se indignaram e perguntaram: como a Skol havia conseguido as licenças num prazo recorde de quatro dias? Ele não respondeu. Mas disse que a cidade não poderia dizer não a um evento como esse. Ou seja, declarou em alto e bom tom que a prefeitura é refém desta gente. Depois, ainda não satisfeito com todas as críticas colocadas pela comunidade ele informou que a prefeitura iria liberar a realização do mesmo show também no domingo “para atender aos que ficaram de fora”, mas que este seria realizado no norte da ilha. “Houve muita expectativa”, afirmou. De novo, o absurdo. A Skol criou a expectativa de um show para milhares e agora estava em apuros. Aí, a prefeitura de Florianópolis vem e a salva.
“Estou aqui para dialogar”, disse Nunes. No que foi rebatido veementemente pelas pessoas presentes na reunião. Não era um diálogo. Tudo estava cumprido. A Skol comandou a ação da prefeitura, a Skol deu as cartas. A comunidade não foi ouvida nem respeitada. O interesse que prevaleceu foi o da empresa de cerveja. Ela burlou todas as normas, todas as regras, todas as leis. E ainda foi “ajudada”. Que mais pode ser dito sobre esta questão? Cada um que tire suas conclusões.
O fato é que a comunidade do sul da ilha vai seguir lutando. Segunda-feira, dia 07, estará outra vez na Câmara de Vereadores cobrando dos nobres edis o cumprimento das leis. Afinal, não estamos no velho oeste, onde a força estava na quantidade das balas das armas dos bandidos. Ou estamos?
Fonte: http://eteia.blogspot.com
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Palavrão na África
Começo a fazer às malas rumo ao continente mãe, a África! De passagem comprada para Dakar, no Senegal, para realizar cobertura do Fórum Social Mundial 2011 para sindicatos de Santa Catarina, começo a preparar o espírito para essa viajem que reserva, com certeza, muitas surpresas. Depois do FSM, fico mais 15 dias viajando pelo continente, na tentativa de conhecer o maior número de países. A Palavrão me acompanha nessa viajem e, se você quiser, também pode vir comigo! É só dar uma olhadinha de vez em quando aqui, nesse humilde blog, para saber da minha viajem. Roteiros, fotos, textos sobre minhas experiências lá serão compartilhados aqui. Dia 5/02 estou indo, espero que você me acompanhe.
Abraços,
Osíris Duarte
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Primeiras cores de 2011
Do alto das Dunas do Maçambinque eu e os meus vimos o ano começar em Tecnicolor... Isso depois da virada de ano mais zen do mundo: Praia deserta, mar, amigos e Deus.
Osíris Duarte
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Ilusões do mundo “civilizado”: A mega sena em cena mega
Devo aqui fazer uma confissão: Sim, eu pensei, por um momento, em jogar na mega sena da virada. Assim como em outras ocasiões, o desejo material tomou conta de mim e, independente da quantia absurda a ser sorteada, tive o ímpeto de jogar assim como já tive com prêmios menores. Em 29 anos joguei apenas uma vez em loterias. Não ganhei. Mas não é o valor do prêmio atual, mas sim a possibilidade de ter recursos materiais para realizar os sonhos mais distantes no que tange a carne que me atraia. Mesmo com idéias altruístas de cunho reparador e pensando na partilha, não consegui amenizar o que penso e o que me impediu de jogar: O abismo ilusório da riqueza sem esforço e a falsa sensação de eqüidade social que esses prêmios promovem.
O sistema humano atual, com predomínio do capitalismo e individualismo, tem esses instrumentos sórdidos para a manutenção do status quo. Os quase 200 milhões de Reais em jogo na Mega Sena da virada são responsáveis por manter viva na mente do povo a ilusão de que nesse sistema todos tem a chance de ascender de classe, de ficar rico. Loterias acabam por se transformar em justificativas para as desigualdades econômicas e sociais, mexendo com os sonhos mais íntimos de tantos, que separam um pouco do seu suado dinheiro para ter a sensação de que há esperança fora do trabalho árduo e da perspectiva de mudança de conduta perante os bens materiais, consumo, coletividade e status social.
A grande mentira das loterias está explícita na forma como são divulgadas e vendidas. Eles dizem: “jogue, você também tem chances de ganhar”. E ai todo mundo joga esquecendo que quanto mais gente jogar menos chance VOCÊ tem de ganhar. O fato é que mesmo com a conjuntura atual do país, necessitado de formas de transferência de renda para amenizar as desigualdades econômicas e investimentos para melhorar a qualidade de vida do cidadão, ainda se fomenta nos corações das pessoas a chance de ascender de classe social, exercendo o poder do dinheiro sobre a vida, o mesmo poder que em muitos casos oprime esses mesmos espíritos ávidos pela chance de ser rico. Essa mania de sobrepujar o outro, deixando pra trás a pobreza e indo em direção a riqueza, em nada colabora para a construção da necessidade de dividir que temos hoje a meu ver. Ai, quem já é rico, se sente correto em não partilhar seus recursos com o próximo, levando uma vida de luxo e opulência, sem se preocupar com os milhões que passam fome e que não tem como suprir necessidades básicas. Acho muito injusto que haja a possibilidade de alguém ganhar sozinho essa bolada. Parece-me o reforço daquilo que muitos consideram um mal a nossa sociedade: a exacerbação da desigualdade social.
Criar a sensação de que existe eqüidade nesse sistema é uma forma de mantê-lo imperando nas nossas vidas, seja botando lenha nas paixões humanas, ou mesmo manipulando psicologicamente a compreensão e o discernimento das pessoas em relação às necessidades coletivas e responsabilidade cidadã. Acaba sendo uma grande contradição moral jogar na loteria, porque qual o brasileiro que nunca reclamou das desigualdades do país? Quem não se manifesta contrário as diferencias econômicas e sociais que fomentam a criminalidade, violência, corrupção e tantos outros problemas da nossa sociedade? Acho que somente aqueles que se beneficiam disso, não é? Só que quem joga na mega sena não é o rico explorador nem o político opressor. Quem joga é quem sofre, o povo, que sonha em um dia deixar de ser empregado e virar patrão, mesmo que seja como capataz do sistema.
A publicidade e a propaganda trabalham com o emocional das pessoas para angariar consumidores e clientes. Superestimando a materialidade, o acúmulo e o pensamento individualista, ela é responsável por grande parte do conteúdo de cunho manipulatório veiculado na imprensa e nos meios de comunicação. A mega sena funciona da mesma forma. Só que sem precisar de subterfúgios para enganar instantaneamente. Seu apelo é pela ganância, e em uma sociedade com moral ainda frágil e valores conflitantes, esse apelo tem sua força explícita nos quase 200 milhões de Reais oferecidos no prêmio.
Será que não há nada mais útil pra fazer com essa grana em beneficio da coletividade? É justo que com tantas mazelas no nosso país nós ainda almejamos ter mais e viver melhor que o próximo? Mesmo querendo realizar meus sonhos mais ambiciosos, mesmo pensando na partilha, não é justo reforçar tal pensamento egoísta e carregado de ganância. Eu fiquei com vergonha de mim, depois da ficha cair, por ter cedido a essa tentação. Acordei antes de me arrepender. Espero que assim como eu tive um momento de lucidez em meio as fantasias que em tantos se instalam com a possibilidade de ganhar a bolada, você, leitor, tenha. Torço para que esse prêmio tenha 200 ganhadores! Serão 200 milionários - melhor do que só mais um! Mas na verdade mesmo, torço para que não haja mais mega sena, quina, jogo do bicho, bingo, etc. Que não haja mais subterfúgios para manipulação do entendimento de liberdade e direito nas sociedades humanas. Que não haja mais um abismo social e que a sociedade de classes se dilua, transformando o dinheiro em apenas aquilo que ele é de verdade: um pedaço de papel colorido.
www.palavraodoosi.blogspot.com
Osíris Duarte 30/12/10
O sistema humano atual, com predomínio do capitalismo e individualismo, tem esses instrumentos sórdidos para a manutenção do status quo. Os quase 200 milhões de Reais em jogo na Mega Sena da virada são responsáveis por manter viva na mente do povo a ilusão de que nesse sistema todos tem a chance de ascender de classe, de ficar rico. Loterias acabam por se transformar em justificativas para as desigualdades econômicas e sociais, mexendo com os sonhos mais íntimos de tantos, que separam um pouco do seu suado dinheiro para ter a sensação de que há esperança fora do trabalho árduo e da perspectiva de mudança de conduta perante os bens materiais, consumo, coletividade e status social.
A grande mentira das loterias está explícita na forma como são divulgadas e vendidas. Eles dizem: “jogue, você também tem chances de ganhar”. E ai todo mundo joga esquecendo que quanto mais gente jogar menos chance VOCÊ tem de ganhar. O fato é que mesmo com a conjuntura atual do país, necessitado de formas de transferência de renda para amenizar as desigualdades econômicas e investimentos para melhorar a qualidade de vida do cidadão, ainda se fomenta nos corações das pessoas a chance de ascender de classe social, exercendo o poder do dinheiro sobre a vida, o mesmo poder que em muitos casos oprime esses mesmos espíritos ávidos pela chance de ser rico. Essa mania de sobrepujar o outro, deixando pra trás a pobreza e indo em direção a riqueza, em nada colabora para a construção da necessidade de dividir que temos hoje a meu ver. Ai, quem já é rico, se sente correto em não partilhar seus recursos com o próximo, levando uma vida de luxo e opulência, sem se preocupar com os milhões que passam fome e que não tem como suprir necessidades básicas. Acho muito injusto que haja a possibilidade de alguém ganhar sozinho essa bolada. Parece-me o reforço daquilo que muitos consideram um mal a nossa sociedade: a exacerbação da desigualdade social.
Criar a sensação de que existe eqüidade nesse sistema é uma forma de mantê-lo imperando nas nossas vidas, seja botando lenha nas paixões humanas, ou mesmo manipulando psicologicamente a compreensão e o discernimento das pessoas em relação às necessidades coletivas e responsabilidade cidadã. Acaba sendo uma grande contradição moral jogar na loteria, porque qual o brasileiro que nunca reclamou das desigualdades do país? Quem não se manifesta contrário as diferencias econômicas e sociais que fomentam a criminalidade, violência, corrupção e tantos outros problemas da nossa sociedade? Acho que somente aqueles que se beneficiam disso, não é? Só que quem joga na mega sena não é o rico explorador nem o político opressor. Quem joga é quem sofre, o povo, que sonha em um dia deixar de ser empregado e virar patrão, mesmo que seja como capataz do sistema.
A publicidade e a propaganda trabalham com o emocional das pessoas para angariar consumidores e clientes. Superestimando a materialidade, o acúmulo e o pensamento individualista, ela é responsável por grande parte do conteúdo de cunho manipulatório veiculado na imprensa e nos meios de comunicação. A mega sena funciona da mesma forma. Só que sem precisar de subterfúgios para enganar instantaneamente. Seu apelo é pela ganância, e em uma sociedade com moral ainda frágil e valores conflitantes, esse apelo tem sua força explícita nos quase 200 milhões de Reais oferecidos no prêmio.
Será que não há nada mais útil pra fazer com essa grana em beneficio da coletividade? É justo que com tantas mazelas no nosso país nós ainda almejamos ter mais e viver melhor que o próximo? Mesmo querendo realizar meus sonhos mais ambiciosos, mesmo pensando na partilha, não é justo reforçar tal pensamento egoísta e carregado de ganância. Eu fiquei com vergonha de mim, depois da ficha cair, por ter cedido a essa tentação. Acordei antes de me arrepender. Espero que assim como eu tive um momento de lucidez em meio as fantasias que em tantos se instalam com a possibilidade de ganhar a bolada, você, leitor, tenha. Torço para que esse prêmio tenha 200 ganhadores! Serão 200 milionários - melhor do que só mais um! Mas na verdade mesmo, torço para que não haja mais mega sena, quina, jogo do bicho, bingo, etc. Que não haja mais subterfúgios para manipulação do entendimento de liberdade e direito nas sociedades humanas. Que não haja mais um abismo social e que a sociedade de classes se dilua, transformando o dinheiro em apenas aquilo que ele é de verdade: um pedaço de papel colorido.
www.palavraodoosi.blogspot.com
Osíris Duarte 30/12/10
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
O anti-social revolucionário
A expectativa que muitos criam em relação às correspondências de conduta, ou discurso, em relação aos paradigmas dos sistemas humanos de organização social vigentes, são meramente o reforço das mazelas causadas pelos mesmos ao convívio humano. Esperam que eu seja mais um boneco do sistema, até nas coisas que parecem mais leves, menos significativas. Isolar-se é impossível, mas o despertar da consciência da dicotomia humana pode significar a disponibilidade para viver e compreender a vida de maneira mais abrangente, sem necessidade de cumprir com as cartilhas de sistemas humanos falidos, auxiliando a construir novas formas de organização social, baseadas em valores imutáveis e mais evoluídos.
Constantemente somos cobrados pelo próximo a interagir de acordo com determinadas condutas. E essa cobrança se faz independente da consciência do cobrador em relação à individualidade do cobrado. Claro que tal consciência não representa um verdadeiro ato de esclarecimento, seguindo de respeito, em relação ao universo particular presente em cada um de nós. Certos ritos sociais e determinadas práxis da boa convivência são apenas reflexos viciosos da necessidade de domínio sobre o “outro” e alento em relação aos próprios medos e permissividade das responsabilidades humanas, projetadas ao próximo em tom de cobrança, corroborando assim com sua própria conduta e servindo de justificativa para a manutenção dela, mesmo sabendo no íntimo que ela é distorcida ou errada, e que a cobrança é uma mera projeção do íntimo de cada um.
Desde que parei de comer carne e decidi me excluir de determinados ritos da sociedade humana, me tornei um ser anti-social. Esses pontos são só alguns exemplos particulares. Na verdade deixei de ser “sociável” quando me enveredei pelo caminho da auto-descobrimento. Na procura de minha identidade essencial, da minha autenticidade, cada vez mais venho desconsiderando as obrigações sociais que fomentam relações egocêntricas, dominadoras e cheias de apego. Os rótulos não me aprazem mais, os preconceitos somente confundem meu entendimento do mundo, distorcendo meu julgamento e meu discernimento. E isso não pode ser considerada uma demonstração de frieza ou indiferença, não quando o foco é a evolução própria que, consequentemente, beneficia o coletivo e clareia a conduta sob a luz da compreensão.
Hoje é comum dissociar caráter de conduta. Pregasse a boa relação, valores elevados, justiça... Mas faz-se pouco para atingir tais metas. Nos discursos sempre estão presentes tais valores importantes: Amor, fraternidade, união, solidariedade... Mas muitas vezes essas palavras são somente palavras, nada mais. A participação em determinados ritos sociais somente reforça estereótipos burros, servindo para muitos como uma fuga da realidade a ser encarada e das verdades a serem vividas. Quando a boa educação serve para um propósito que não o amor ao próximo, ela é apenas um instrumento de dissimulação, que reforça a mentira dos rótulos que assumimos, disfarçando a conduta que realmente adotamos. Na política partidária esse exemplo é corriqueiro, não é?
Ter me excluído de rodas de cervejada semanal, de churrascadas regadas a gargalhadas em meio à comilança, não me afastou da noção real que deve estar presente na forma como nos relacionamos, pelo contrário. Viver com mais certeza das minhas buscas e daquilo que sou aproximou muitas pessoas de mim. Parece que a necessidade de se descobrir atrai quem sente dentro de si o mesmo anseio. E sem me afastar de ninguém me aproximei de todos, estabelecendo os consensos nas relações que vivo sem mentiras. Não deixei minhas amizades, mas deixei meus amigos sim. Deixei com que eles trilhassem seus caminhos, empreendendo a mesma busca que faço comigo, busca essa repleta de alegrias e conquistas, muito maiores do que as vitórias meramente materiais.
O afastamento de determinadas convenções sociais também me proporcionou a vivenciar as minhas próprias convenções. Assim me aprofundei ainda mais no que sou, dando chance para ver coisas que antes não podia ver, mesmo estando guardadas em mim. É assim que hoje caminho, no presente. A transitoriedade da vida, quando vivida, abre portas que antes nunca pareceram possíveis, ou que nunca passaram por nossas cabeças. Aí novas coisas, que antes eram desdenhadas ou não almejadas, passam a ter importância, tudo graças à impermanência da vida.
Mas apesar dessa condição instável – que demonstra a constante busca por equilíbrio da existência, fato que nos ensina o caminho do equilíbrio em si – viver nos reserva verdades essênciais absolutas, como, por exemplo, o fato de coexistirmos. A condição biossocial do homem é algo factual. A interdependência existencial das individualidades humanas está sempre presente na construção de rótulos e máscaras, mas eles só se constróem porque não possuímos, ainda, a firmeza em nossas reais identidades, nosso eu integral. Assim, para nos sentirmos parte da sociedade, assumimos os paradigmas pré-estabelecidos pelo sistema de organização humana, feito pelos próprios homens, que desconhecem a profundidade real que reside dentro deles mesmos. Antes de estabelecer paradigmas é necessário conhecer o terreno onde essas referências se apóiam. Em um mundo que se apresenta tão caótico, será mesmo que conhecemos a terra onde pisamos? Será mesmo que nos conhecemos? A pergunta filosófica fundamental não é só apenas um devaneio intelectual de boêmios na madrugada, é necessidade existencial.
Nossos valores incorruptíveis são inquestionáveis e independentes da vida dentro do sistema humano. A nossa dependência simbiótica do bioma terrestre, nossa necessidade de tolerância e paciência em relação às diferenças na busca pela paz, nossa necessidade de amor recíproco e de harmonia nas relações são coisas que todos nós, quando abdicamos por um momento do nosso ego inchado e da nossa cegueira arrogante, sabemos o quanto são verdadeiras e inquestionáveis. Portanto, se não nos falamos há muito tempo, se não apareci na festa, se faço questão de não falar sobre determinados pontos de vista, condutas ou temas, é porque me amo tanto quanto amo você. E não passarei por cima do teu livre-arbítrio, não vou tirar teu mérito em descobrir quem és realmente. Não hei de sugá-lo para justificar meus erros e não vou cobrá-lo por aquilo que devo esperar apenas de mim, assim como eu espero ser respeitado na particularidade do meu íntimo autoexistente, o eu e eu no balé da vida.
Artigo publicado neste Blog em 2009 e reeditado em 2010
Osíris Duarte – Jornalista
Constantemente somos cobrados pelo próximo a interagir de acordo com determinadas condutas. E essa cobrança se faz independente da consciência do cobrador em relação à individualidade do cobrado. Claro que tal consciência não representa um verdadeiro ato de esclarecimento, seguindo de respeito, em relação ao universo particular presente em cada um de nós. Certos ritos sociais e determinadas práxis da boa convivência são apenas reflexos viciosos da necessidade de domínio sobre o “outro” e alento em relação aos próprios medos e permissividade das responsabilidades humanas, projetadas ao próximo em tom de cobrança, corroborando assim com sua própria conduta e servindo de justificativa para a manutenção dela, mesmo sabendo no íntimo que ela é distorcida ou errada, e que a cobrança é uma mera projeção do íntimo de cada um.
Desde que parei de comer carne e decidi me excluir de determinados ritos da sociedade humana, me tornei um ser anti-social. Esses pontos são só alguns exemplos particulares. Na verdade deixei de ser “sociável” quando me enveredei pelo caminho da auto-descobrimento. Na procura de minha identidade essencial, da minha autenticidade, cada vez mais venho desconsiderando as obrigações sociais que fomentam relações egocêntricas, dominadoras e cheias de apego. Os rótulos não me aprazem mais, os preconceitos somente confundem meu entendimento do mundo, distorcendo meu julgamento e meu discernimento. E isso não pode ser considerada uma demonstração de frieza ou indiferença, não quando o foco é a evolução própria que, consequentemente, beneficia o coletivo e clareia a conduta sob a luz da compreensão.
Hoje é comum dissociar caráter de conduta. Pregasse a boa relação, valores elevados, justiça... Mas faz-se pouco para atingir tais metas. Nos discursos sempre estão presentes tais valores importantes: Amor, fraternidade, união, solidariedade... Mas muitas vezes essas palavras são somente palavras, nada mais. A participação em determinados ritos sociais somente reforça estereótipos burros, servindo para muitos como uma fuga da realidade a ser encarada e das verdades a serem vividas. Quando a boa educação serve para um propósito que não o amor ao próximo, ela é apenas um instrumento de dissimulação, que reforça a mentira dos rótulos que assumimos, disfarçando a conduta que realmente adotamos. Na política partidária esse exemplo é corriqueiro, não é?
Ter me excluído de rodas de cervejada semanal, de churrascadas regadas a gargalhadas em meio à comilança, não me afastou da noção real que deve estar presente na forma como nos relacionamos, pelo contrário. Viver com mais certeza das minhas buscas e daquilo que sou aproximou muitas pessoas de mim. Parece que a necessidade de se descobrir atrai quem sente dentro de si o mesmo anseio. E sem me afastar de ninguém me aproximei de todos, estabelecendo os consensos nas relações que vivo sem mentiras. Não deixei minhas amizades, mas deixei meus amigos sim. Deixei com que eles trilhassem seus caminhos, empreendendo a mesma busca que faço comigo, busca essa repleta de alegrias e conquistas, muito maiores do que as vitórias meramente materiais.
O afastamento de determinadas convenções sociais também me proporcionou a vivenciar as minhas próprias convenções. Assim me aprofundei ainda mais no que sou, dando chance para ver coisas que antes não podia ver, mesmo estando guardadas em mim. É assim que hoje caminho, no presente. A transitoriedade da vida, quando vivida, abre portas que antes nunca pareceram possíveis, ou que nunca passaram por nossas cabeças. Aí novas coisas, que antes eram desdenhadas ou não almejadas, passam a ter importância, tudo graças à impermanência da vida.
Mas apesar dessa condição instável – que demonstra a constante busca por equilíbrio da existência, fato que nos ensina o caminho do equilíbrio em si – viver nos reserva verdades essênciais absolutas, como, por exemplo, o fato de coexistirmos. A condição biossocial do homem é algo factual. A interdependência existencial das individualidades humanas está sempre presente na construção de rótulos e máscaras, mas eles só se constróem porque não possuímos, ainda, a firmeza em nossas reais identidades, nosso eu integral. Assim, para nos sentirmos parte da sociedade, assumimos os paradigmas pré-estabelecidos pelo sistema de organização humana, feito pelos próprios homens, que desconhecem a profundidade real que reside dentro deles mesmos. Antes de estabelecer paradigmas é necessário conhecer o terreno onde essas referências se apóiam. Em um mundo que se apresenta tão caótico, será mesmo que conhecemos a terra onde pisamos? Será mesmo que nos conhecemos? A pergunta filosófica fundamental não é só apenas um devaneio intelectual de boêmios na madrugada, é necessidade existencial.
Nossos valores incorruptíveis são inquestionáveis e independentes da vida dentro do sistema humano. A nossa dependência simbiótica do bioma terrestre, nossa necessidade de tolerância e paciência em relação às diferenças na busca pela paz, nossa necessidade de amor recíproco e de harmonia nas relações são coisas que todos nós, quando abdicamos por um momento do nosso ego inchado e da nossa cegueira arrogante, sabemos o quanto são verdadeiras e inquestionáveis. Portanto, se não nos falamos há muito tempo, se não apareci na festa, se faço questão de não falar sobre determinados pontos de vista, condutas ou temas, é porque me amo tanto quanto amo você. E não passarei por cima do teu livre-arbítrio, não vou tirar teu mérito em descobrir quem és realmente. Não hei de sugá-lo para justificar meus erros e não vou cobrá-lo por aquilo que devo esperar apenas de mim, assim como eu espero ser respeitado na particularidade do meu íntimo autoexistente, o eu e eu no balé da vida.
Artigo publicado neste Blog em 2009 e reeditado em 2010
Osíris Duarte – Jornalista
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Sobre flores, dilemas e disputas
Lá em casa as flores crescem na medida do amor no meu coração. E quando um dia triste, de chuva e céu cinza, cobre meu telhado, as flores ainda insistem em perfumar meu jardim. Porque procuro não me abalar mais pela efemeridade dos sentimentos que o cinza da chuva me trás, mas sim viver mais as cores e os perfumes das flores. Lá em casa elas florescem sem meu auxílio ou minha interferência. Lá em casa as flores são livres para adornar de beleza meu dia de jardinagem, minha metáfora cotidiana, minha estante de livros em desordem organizada, minha vida...
Já falei, aqui mesmo nesse blog, minha opinião a respeito de conflitos, disputa, revolta, intolerância e indignação. Essas situações, ou sentimentos, permeiam nossas vidas coletivas, fazem parte do cotidiano psicossocial e determinam posturas e escolhas. Conflito é algo que acompanha a história da humanidade. Foram através deles, os conflitos, independente do tema a gerar tensão, que avançamos em muitas questões de ordem material, política, afetiva e social. O palco de forças antagônicas, ou mesmo discordantes, gera o conflito e, com esse conflito, é produzida uma energia que impele a humanidade para os próximos passos. Na dinâmica de nossa existência considero que sempre avançamos, mesmo quando não parece e, sendo assim, o conflito como força motriz da evolução se mostra como instrumento importante na depuração de valores e na construção de novos paradigmas. Mas então qual é a crítica ao conflito?
A crítica em si não reside no conflito do tipo individual, pessoal, íntimo, que produz em nós mudanças e nos faz refletir a respeito da vida e do nosso papel no mundo, mas sim nos pontos de tensão que se estabelecem em decorrência dos conflitos pela incapacidade de alguns seres humanos em olhar o próximo sem intolerância. Resquícios da primitividade humana. Num mundo com tanta diversidade (que não vejo como acaso) o conflito é instrumento esperado, necessário até certo ponto. Mas hoje sinto cada vez mais forte a necessidade de conciliação, mais do que a necessidade de conflito. E nela, na conciliação, que percebo o próximo passo evolutivo em termos morais e sociais para a humanidade. Grande parte dos entraves, mesmo com o grau de evolução do intelecto humano, não se dão pela necessidade de tensões para produzir novos valores nas pessoas, mas pela dificuldade de dissolver tais tensões em benefício próprio e do coletivo. Os conflitos de ordem social se estabelecem na sua maioria por uma postura egocêntrica e individualista, que não tem distinção de camada social. Mas ai você me pergunta: Osíris, como conciliar com patrões capitalistas e políticos safados, que querem somente explorar e obter benefícios nas costas do povo, trabalhador, humano? Respondo com uma frase que ouvi muitas vezes da minha mãe quando um colega ia a algum lugar ou tinha algo que eu pedia: Mas fulano vai mãe! Eu dizia. E ela: E se ele pular de um penhasco você também vai? Justificar nossas ações com as dos outros não guarda mérito moral nenhum para mim. É necessário sim que vivenciamos nossos conflitos mais íntimos, mas desnecessário é culpar o mundo e o próximo por eles. Não pegarei em armas para lutar pela paz.
Já a disputa pode ou não ter sua origem nos conflitos, seja de ordem pessoal ou conjuntural (política, cultura, gênero, raça...). Mas a palavra em si e a intenção que ela carrega é que me arregalam os olhos e me faz desconfiar da argumentação para justificá-la. Tudo aquilo que se disputa não se divide. A disputa tem em si a predisposição de prevalência perante algo, o que em si já é exclusor. Por mais que nossa sociedade esteja cheia de gente que está voltada para o mal, com caráter duvidoso, ou por mais que as instituições públicas e privadas sejam falhas e opressoras, por maior que seja a má vontade ou desejo de vingança e exploração, como podemos nos considerar aptos e dignos de combater tais coisas nos portando da mesma forma, ou mesmo utilizando isso tudo como argumento para que a bola da vez seja você, não aquele que você considera a escória da sociedade? Como acreditar em alguém que se diz socialista, defensor dos fracos e oprimidos, quando esse mesmo sujeito disputa a posição de destaque, ou a possibilidade de benesses e status, do seu dito opressor? Não que não queira gente boa nos cargos públicos e na gestão social, mas dentro de um sistema de cartas marcadas, disputar tais posições somente nos levará a ocupar da mesma forma o cargo do predecessor mau caráter, cumprindo o papel que lhe cabe no sistema para assumir tal posição. O problema do sistema somos nós gente, não ele em si. Por que somos nós que damos credibilidade a ele, somos nós que galgamos posições dentro do mesmo, fomos nós, direta ou indiretamente, que o construímos, sem preocupação, muitas vezes, com o coletivo ou o próximo. O passo evolutivo de abolição de conflitos e disputas é o que, para mim, se avizinha na evolução do nosso ser humano terrestre. Isso ainda pode parecer uma utopia hoje, mas o que é nossa realidade se não uma utopia do passado.
Por causa dos conflitos e disputas, geramos em nós sentimentos como a revolta, indignação, medo, ansiedade e agressividade. E nada disso, por mais que em alguns casos vá gerar frutos positivos em quem sente, pode ser considerado uma forma evoluída de compreender e apreender com a vida. Não quero aqui desvalorizar a caminhada de cada um. Cada qual com o peso da sua necessidade de crescimento, pois o ônus e o bônus da vida cabem a cada um em conformidade com aquilo que se semeou. Também não quero que esse artigo pareça uma forma de justificar a inércia ou a alienação. Só acho que há outras formas de lutar pela evolução tirando o conflito e a disputa. Acredito que possamos evoluir se adotarmos uma postura amorosa perante a vida, fomentando o que há de melhor nas pessoas. Acho que ter postura política, opinião e atitude cidadã não significa que devemos medir forças com o próximo. Penso que ao invés de destruir os jardins durante a batalha, mesmo com o argumento de reconstruí-los melhores - ao gosto próprio! - é mais contraproducente do plantar mais flores. Devemos sim nos indignar e nos revoltar contra aquilo que atenta a evolução da humanidade, não apenas com o que conflita com nossas escolhas pessoais de cunho religioso, intelectual ou político. E que esses sentimentos sejam o reflexo da vontade de transformar para o bem nossa existência, não a tradução do que há de pior em nós. Essa coerência, que vale para capitalistas, socialistas, anarquistas, budistas, cristãos ou mulçumanos. Que vale para pretos, brancos, amarelos, vermelhos e azuis, fala muito mais alto as nossas necessidades evolutivas do que a revolução socialista ou o desenvolvimentismo estúpido capitalista. Como considerar a humanidade preparada para galgar caminhos de justiça e fraternidade, se nos apoiamos não no sentir, mas no prevalecer? Como construir algo que sirva a todos excluindo sempre alguém da construção do processo?
Lá em casa as flores crescem na medida do meu amor. E quando elas florescem e o odor delas me amolece, sinto que a beleza da flor, que cresce sem que percebamos, durante a noite de sono, está no processo livre de viver para colorir o mundo, perfumar a vida e renovar a esperança do Jardim do Édem, da humanidade florescida.
Osíris Duarte
Tem/PB 02358 JP
Já falei, aqui mesmo nesse blog, minha opinião a respeito de conflitos, disputa, revolta, intolerância e indignação. Essas situações, ou sentimentos, permeiam nossas vidas coletivas, fazem parte do cotidiano psicossocial e determinam posturas e escolhas. Conflito é algo que acompanha a história da humanidade. Foram através deles, os conflitos, independente do tema a gerar tensão, que avançamos em muitas questões de ordem material, política, afetiva e social. O palco de forças antagônicas, ou mesmo discordantes, gera o conflito e, com esse conflito, é produzida uma energia que impele a humanidade para os próximos passos. Na dinâmica de nossa existência considero que sempre avançamos, mesmo quando não parece e, sendo assim, o conflito como força motriz da evolução se mostra como instrumento importante na depuração de valores e na construção de novos paradigmas. Mas então qual é a crítica ao conflito?
A crítica em si não reside no conflito do tipo individual, pessoal, íntimo, que produz em nós mudanças e nos faz refletir a respeito da vida e do nosso papel no mundo, mas sim nos pontos de tensão que se estabelecem em decorrência dos conflitos pela incapacidade de alguns seres humanos em olhar o próximo sem intolerância. Resquícios da primitividade humana. Num mundo com tanta diversidade (que não vejo como acaso) o conflito é instrumento esperado, necessário até certo ponto. Mas hoje sinto cada vez mais forte a necessidade de conciliação, mais do que a necessidade de conflito. E nela, na conciliação, que percebo o próximo passo evolutivo em termos morais e sociais para a humanidade. Grande parte dos entraves, mesmo com o grau de evolução do intelecto humano, não se dão pela necessidade de tensões para produzir novos valores nas pessoas, mas pela dificuldade de dissolver tais tensões em benefício próprio e do coletivo. Os conflitos de ordem social se estabelecem na sua maioria por uma postura egocêntrica e individualista, que não tem distinção de camada social. Mas ai você me pergunta: Osíris, como conciliar com patrões capitalistas e políticos safados, que querem somente explorar e obter benefícios nas costas do povo, trabalhador, humano? Respondo com uma frase que ouvi muitas vezes da minha mãe quando um colega ia a algum lugar ou tinha algo que eu pedia: Mas fulano vai mãe! Eu dizia. E ela: E se ele pular de um penhasco você também vai? Justificar nossas ações com as dos outros não guarda mérito moral nenhum para mim. É necessário sim que vivenciamos nossos conflitos mais íntimos, mas desnecessário é culpar o mundo e o próximo por eles. Não pegarei em armas para lutar pela paz.
Já a disputa pode ou não ter sua origem nos conflitos, seja de ordem pessoal ou conjuntural (política, cultura, gênero, raça...). Mas a palavra em si e a intenção que ela carrega é que me arregalam os olhos e me faz desconfiar da argumentação para justificá-la. Tudo aquilo que se disputa não se divide. A disputa tem em si a predisposição de prevalência perante algo, o que em si já é exclusor. Por mais que nossa sociedade esteja cheia de gente que está voltada para o mal, com caráter duvidoso, ou por mais que as instituições públicas e privadas sejam falhas e opressoras, por maior que seja a má vontade ou desejo de vingança e exploração, como podemos nos considerar aptos e dignos de combater tais coisas nos portando da mesma forma, ou mesmo utilizando isso tudo como argumento para que a bola da vez seja você, não aquele que você considera a escória da sociedade? Como acreditar em alguém que se diz socialista, defensor dos fracos e oprimidos, quando esse mesmo sujeito disputa a posição de destaque, ou a possibilidade de benesses e status, do seu dito opressor? Não que não queira gente boa nos cargos públicos e na gestão social, mas dentro de um sistema de cartas marcadas, disputar tais posições somente nos levará a ocupar da mesma forma o cargo do predecessor mau caráter, cumprindo o papel que lhe cabe no sistema para assumir tal posição. O problema do sistema somos nós gente, não ele em si. Por que somos nós que damos credibilidade a ele, somos nós que galgamos posições dentro do mesmo, fomos nós, direta ou indiretamente, que o construímos, sem preocupação, muitas vezes, com o coletivo ou o próximo. O passo evolutivo de abolição de conflitos e disputas é o que, para mim, se avizinha na evolução do nosso ser humano terrestre. Isso ainda pode parecer uma utopia hoje, mas o que é nossa realidade se não uma utopia do passado.
Por causa dos conflitos e disputas, geramos em nós sentimentos como a revolta, indignação, medo, ansiedade e agressividade. E nada disso, por mais que em alguns casos vá gerar frutos positivos em quem sente, pode ser considerado uma forma evoluída de compreender e apreender com a vida. Não quero aqui desvalorizar a caminhada de cada um. Cada qual com o peso da sua necessidade de crescimento, pois o ônus e o bônus da vida cabem a cada um em conformidade com aquilo que se semeou. Também não quero que esse artigo pareça uma forma de justificar a inércia ou a alienação. Só acho que há outras formas de lutar pela evolução tirando o conflito e a disputa. Acredito que possamos evoluir se adotarmos uma postura amorosa perante a vida, fomentando o que há de melhor nas pessoas. Acho que ter postura política, opinião e atitude cidadã não significa que devemos medir forças com o próximo. Penso que ao invés de destruir os jardins durante a batalha, mesmo com o argumento de reconstruí-los melhores - ao gosto próprio! - é mais contraproducente do plantar mais flores. Devemos sim nos indignar e nos revoltar contra aquilo que atenta a evolução da humanidade, não apenas com o que conflita com nossas escolhas pessoais de cunho religioso, intelectual ou político. E que esses sentimentos sejam o reflexo da vontade de transformar para o bem nossa existência, não a tradução do que há de pior em nós. Essa coerência, que vale para capitalistas, socialistas, anarquistas, budistas, cristãos ou mulçumanos. Que vale para pretos, brancos, amarelos, vermelhos e azuis, fala muito mais alto as nossas necessidades evolutivas do que a revolução socialista ou o desenvolvimentismo estúpido capitalista. Como considerar a humanidade preparada para galgar caminhos de justiça e fraternidade, se nos apoiamos não no sentir, mas no prevalecer? Como construir algo que sirva a todos excluindo sempre alguém da construção do processo?
Lá em casa as flores crescem na medida do meu amor. E quando elas florescem e o odor delas me amolece, sinto que a beleza da flor, que cresce sem que percebamos, durante a noite de sono, está no processo livre de viver para colorir o mundo, perfumar a vida e renovar a esperança do Jardim do Édem, da humanidade florescida.
Osíris Duarte
Tem/PB 02358 JP
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Nos mil mudei...
O Palavrão, esse bloguezinho despretensioso que montei há mais ou menos um ano chegou aos 1000 acessos. Sei que em termos de internet isso não é nada! Também sei que não vou ficar famoso nem ganhar dinheiro com isso, mas pra não deixar passar tão batido e dar algum crédito pela minha perseverança em atualizá-lo periodicamente, mudei o layout e coloquei mais uns aplicativos. Quem gostou ótimo, quem não gostou fala ai porque? Abraços a quem interessar.
Osíris Duarte
Osíris Duarte
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