quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A cobra que come o próprio rabo



   Estou chegando a conclusão que certos esforços de cunho externo a nós são desperdício de energia. Me refiro, principalmente, aos esforços que visam criticar a nossa vida social e nossos referenciais morais. Enfim, aquilo que media nossa vida comum. Por que, se por um lado é necessário enxovalhar as bobagens sem tamanho que são Big Brother Brasil, vida de celebridade, consumismo, individualismo, posicionamento dos desafetos ideológicos, políticos, futebolísticos e afetivos baseados na paixão, já que essas bobagens são responsáveis por grande parte da ignorância que permeia nossa vida comum, por outro a insistência na crítica que rebate e coloca no devido lugar essas porcarias acaba por reforçá-las, conferindo mais notoriedade e dando mais visibilidade ainda para tais besteiras. 

   O maior exemplo disso é a insistência de gente que arrota discurso de inteligente, revolucionária e consciente dos instrumentos de manipulação e alienação de massa usados pela mídia burguesa, em falar mal sobre o famigerado reality show global - que de real nada tem. "Porque o Bial cobriu a queda do muro de Berlim! Como ele se submete a isso!", dizem alguns jornalistas e comunicadores conhecidos meus, em uma demonstração de ignorância e de certa ingenuidade que me espanta, ainda mais quando vem de pessoas que pretensamente entendem do assunto.  Para mim, a escolha por tecer críticas a conduta do apresentador, bem como as razões que levam ele e a emissora insistir na transmissão dessa gosma imensa que é o BBB, serve como um grito desesperado de auto-afirmação intelectual de alguns tantos filósofos de redes sociais. Me pergunto porque gente que diz desprezar tanto tal tipo de produto midiático insiste em falar sobre ele, dando destaque inclusive para as opiniões esdrúxulas que alguns emitem sobre os enredos do programa bem como querendo achar uma resposta condizente com a postura de Pedro Bial, o repórter ultramega star, que é inteligente demais para estar apresentando o BBB. Quem ainda faz esse tipo de comparação (muro de Berlin e BBB) infelizmente ainda não entendeu o que rege os critérios da mídia burguesa manipuladora nem mesmo sabe o que é jornalismo. 

   Faça você, que lê isso agora a seguinte reflexão: é sempre o mais capaz a assumir o papel de coadjuvante de luxo, ou o mais servil? E quem protagoniza, e sempre quem visa as boas intenções? O que garante a conduta ética do jornalista está atrelado as pautas que ele fez ou as ele se recusou a fazer? Ter sido mandando para cobrir uma pauta importante não é questão de caráter meus caros, nem mesmo a competência técnica. Escrever bem, ser bem articulado ou carismático não são garantias de bom caráter nem de ética. Não que eu esteja questionando o caráter do Bial, mas é que entendo, assim como entendo certos militantes de partidos políticos ou trabalhadores de empresas privadas, assim como entendo sindicalistas de centrais e torcedores de organizadas de futebol, que as escolhas sobre o que vai determinar nossa vida, que facção vou fazer parte, que tribo, que grupo, que turma, turvam nosso entendimento de pluralidade, coletividade e, inclusive, de qualidade de consumo de produtos sociais, como é a mídia, e os valores que permeiam essas palatáveis iguarias, presenteadas pelos Gregos, que nos deixam obesos de ignorância. Ando bem cansado do ufanismo dos extremos, sejam eles quais forem. Os rótulos não conferem qualidade as coisas. Até mesmo muitos daqueles que militam sob a bandeira do socialismo não sabem minimamente, fora do seu conhecimento teórico, viver em sociedade, comungar, ser solidário... Um exemplo recente que tenho disso foi a conduta da CTB na abertura do Fórum Social Temático, realizado em Porto Alegre, em janeiro desse ano. A passeata de abertura do Fórum, que nos últimos 10 anos foi puxada pelo movimento da Paz, precisou da interferência da organização do evento porque os sindicalistas insistiam em sair na frente, ameaçando com agressão, inclusive, aqueles que resistiram ao grito egocêntrico do que ali estavam. Com gritos de guerra e comportamento de organizada de futebol, o pessoal da CTB acabou reforçando, mesmo com as bandeiras ditas libertárias que defendem, o reacionarismo, autoritarismo e a ignorância responsáveis pela falta de credibilidade que muitas pertenças entidades civis e políticas tem perante a sociedade. Depois culpam o povo pela inércia de mobilização no país. Digo o mesmo com relação aos críticos do sistema que do alto de sua razão continuam a alimentá-lo, porque não acham "justo" abrirem mão de algum conforto advindo da subserviência dispensado ao mesmo sistema que criticam.

  Talvez essas minhas colocações estejam movidas de algum sentimento de revolta momentânea, provocada pela insistência da hipocrisia cotidiana. Sendo assim me torno também um certo extremo, e serve para mim o mesmo discurso que destilei aos outros. A vida tem contradições sim. Mas o que estou tentando dizer aqui é que se você não concorda, não gosta ou não quer, então não alimente, não propague! Essa seria a atitude mais coerente para com o desprezo que se tem, pretensamente, para com as merdas midiáticas, políticas, ideológicas e morais dos dias de hoje.  Ao invés de arrotar razão, reverta a emoção e trabalhe, de atenção e foco, para aquilo que se opõe a realidade nefasta que criticamos.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A democracia e sua expressão


Por elaine tavares  - jornalista

O teórico do jornalismo, Adelmo Genro Filho, já havia revelado no seu livro “O Segredo da Pirâmide” que, apesar de ser filho dileto do capitalismo, existem momentos nos quais o jornalismo não pode esconder as contradições da vida real. Daí a possibilidade do seu caráter revolucionário. Penso que é o que temos visto, nos últimos dias, na televisão. Apesar da posição sempre servil das emissoras com relação ao poder, e das informações aparentemente desconexas, se procurarmos juntar os fios das informações, podemos ter um quadro sem retoques da tão defendida democracia liberal. Nela, ao contrário do que dizem os porta-vozes dos governos, o que não existe é a liberdade. Mas é preciso aclarar: a liberdade dos pobres. A eles é vedado o direito a qualquer reivindicação. Se ficarem quietos, agüentando tudo, está certo. Mas se resolverem gritar contra qualquer filigrana do poder, a força da “democracia” aparece com um estrondo sem lugar.

Todos os dias, a pedagogia da sedução do sistema capitalista joga para dentro das cabeças a idéia de que a democracia do mundo ocidental é a melhor coisa que pode acontecer aos povos. Foi assim quando os Estados Unidos quis invadir o Afeganistão. Pintaram os talibãs como diabos e diziam que a alegria só voltaria ao país se ali entrasse a democracia. Invadiram, depuseram o talibã, implantaram a democracia e tudo seguiu como antes: violência, terror, mortes. Depois foi a vez do Iraque. Sadam era o demônio antidemocrático. E lá foram os soldados estadunidenses a levar a democracia. Resultado: violência, terror e milhões de mortos. Cenas que seguem se repetindo até hoje. Ora, se a democracia iria resolver tudo, como não resolveu? Ano passado foi a Líbia que mereceu a visita da democracia. Que se passa por lá agora? Por que os meios não nos contam? Reina a paz? A mesma que eles querem impor à Síria, agora a bola da vez para receber a democracia.

Mas, não precisamos ir muito longe, no Oriente Médio, para ver como a democracia se comporta. Basta uma olhadinha para nós mesmos. A desocupação da comunidade do Pinheirinho no final de janeiro, com todos os requintes de brutalidade, é um exemplo bem claro. Os empobrecidos, sem casa, sem esperança, sem nada, ocuparam uma terra abandonada. Lá ergueram suas casas e lá viveram por oito anos. Uma vida. Agora, a justiça (assim, com minúscula) decide que ali não é lugar de pobre morar e começa todo um processo de demonização das pessoas. São bandidos, marginais, gentes sem estofo. Não merecem a pena de ninguém, daí que as cenas brutais das casas sendo destruídas, das famílias sendo despejadas, dos animais sendo mortos e outras tantas gentes sendo presa ou desaparecida já não comove boa parte das pessoas. O recado da democracia já havia sido dado: aquelas criaturas não eram gente, logo, a violência é bem vinda. É limpeza.

Hoje, assisti as cenas na Bahia, divulgadas pelos jornais nacionais. Os repórteres falam dos vândalos que saqueiam lojas, dos bandidos que circulam pela madrugada baiana, das “badernas” dos familiares dos policiais em greve e, é claro, os grevistas são pintados como os grandes responsáveis pelo caos que se instalou na bela capital baiana. Então mostram a atitude acertada do governo central que mandou jovens do exército nacional para garantir a lei e a ordem. E mostram alguns moradores saudando a vinda do exército para salvá-los. Os confrontos em frente a Assembléia onde estão os trabalhadores em greve são mostrados como distúrbios irracionais. Nenhuma das reportagens toca no nome do governador baiano, Jaques Wagner, como se o governo não tivesse absolutamente nada a ver com isso. Quando seu nome aparece é como o cara que vai garantir o carnaval, nem que tenha de trazer todo o exército para as ruas. Claro, a folia dos endinheirados é mais importante do que liberar uns poucos caraminguás aos policiais.

Pois essa é tão amada democracia burguesa. A lei e a ordem dos poderosos, dos que tem o dinheiro, dos que tem o poder. Qualquer rugosidade nessa paz do poder, e os remédios são imediatamente utilizados sem qualquer piedade. Há que impedir que a “doença” se alastre e há que agir com rapidez. E as doenças são, comumente, os empobrecidos, os sem-teto, sem terra, sem trabalho, os explorados, gente que vive assim, não porque quer, mas porque é levada à margem pela ganância e a sede de lucros de quem manda. Mas esses precisam ficar quietos, acatar todas as leis que são criadas contra eles, precisam aceitar de cabeça baixa todas as decisões que os graúdos lhes impõe, ainda que sejam injustas e imorais.
E a coisa é tão bem arrumadinha que, por vezes, as próprias “vítimas” – que é a maioria da população – aceitam a idéia de que é preciso viver na paz, sem perturbar a ordem dos que mandam. Aceitar o cabresto e viver das migalhas.

Ocorre que gente há que diz não. Não aceita. Não quer. Gente há que quer morar, viver, comer sorvete, levar o filho ao parquinho, ver um bom filme no cinema. Gente há que não se deixa enganar pelo canto vazio da ideologia que se expressa na escola, na família, na TV. Gente há que luta, que se rebela, organizadamente ou não.

O quadro da democracia burguesa é mais ou menos assim. Os que são jogados na miséria e na exploração, ou se revoltam individualmente e roubam, matam, perdem sua humanidade, ou se organizam em sindicatos, movimentos, e lutam coletivamente por mudanças. Uma coisa ou outra sempre vai acontecer, ou as duas juntas ao mesmo tempo. Não dá para fugir disso. É da condição humana caminhar para a beleza. Ninguém pode aceitar viver sem isso.

Assim, sejamos espertos, observemos as notícias com o grosso lápis da história e vamos ligando os fios. O desenho final é o quadro da opressão massacrando aqueles que querem participar do banquete, enquanto na televisão os lobos aparecem como cordeiros, e os cordeiros como lobos. Um espelho invertido que precisa ser quebrado. Já vimos essa história aqui mesmo na pele, com a revolta da catraca, ou a luta dos professores pelo simples cumprimento de uma lei.


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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pinheirinho ou Pau-Brasil?

Osíris Duarte - Jornalista

  "O pau-brasil só poderia ser retirado de nossas matas se houvesse uma autorização preliminar da Coroa Portuguesa e o acerto das taxas era estipulado por esta. O primeiro a usufruir dessa concessão, em 1501, foi Fernando de Noronha, o qual tinha como sócios vários comerciantes judeus, porém, em troca desta permissão, tinham por obrigação enviar embarcações à nova terra, encontrar pelo menos trezentas léguas de costa, pagar uma quantia pré -estipulada à Coroa e também edificar e conservar as fortificações, mantendo assim a segurança do novo território tão almejado pelos invasores. Era proibido aos colonos explorar ou queimar a madeira corante.(1)"

  Semelhança não é mera coincidência. A forma como se lida com a noção de coletividade no Brasil é reproduzida ao longo da história no que tange nossa constituição e entendimento como sociedade. O mês de janeiro de 2012 ficou marcado por mais um episódio, fácil de comparar e de fazer o trocadilho com o título do artigo,  e quase impossível de evitar: A dissolução da Comunidade do Pinheirinho, em São José do Campos, estado de São Paulo. Mesmo com o assunto ficando velho na imprensa nacional de massa, podemos afirmar que o tema não envelhece na conjuntura social do país, o que motiva abordagem do mesmo. É que não é só na prática, mas também no discurso de muita gente,  que está presente a defesa da propriedade privada prevalecendo sobre o bem coletivo. E mesmo quando tal interpretação configura um equívoco jurídico e, principalmente moral, ainda se sustenta essa argumentação, que reforça os dias de individualismo em meio a uma existência coletiva, dias que vivemos hoje. 

Sobre o direito de propriedade privada

  Segundo o Jurista e livre docente de direito do trabalho brasileiro na USP e juiz titular na 3ª Vara do Trabalho de Jundiaí desde 1998, Jorge Luiz Souto Maior,  "na base jurídica do ato (desocupação do Pinheirinho) cometido está, dizem, o direito de propriedade.  Mas, o direito de propriedade, conforme previsto constitucionalmente, deve atender à sua função social (artigo 5º, inciso XXIII, da CF). Sem esse pressuposto nenhum direito de propriedade pode ser exercido. A Constituição, ainda, garante a todos os cidadãos, como preceito fundamental, o direito à moradia (artigo 6º, inserto no Título II, do Capítulo II, da CF)."

  Desse ponto de vista, a ocupação, para fins de moradia, de uma terra improdutiva, abandonada, sobre a qual o proprietário não exerce o direito de posse, que não serve sequer ao lazer e que pela sua localidade e tamanho precisa, necessariamente, atender a uma finalidade social, não é mera invasão. Trata-se, em verdade, de uma ação política que visa pôr à prova a eficácia dos preceitos constitucionais, cabendo esclarecer que essa não é uma temática exclusiva do meio rural já que as normas jurídicas mencionadas não fazem essa diferenciação e também a Constituição de 1988 passou a admitir o usucapião de imóveis urbanos (artigo 183), afirma o jurista. (2)

A história da Pinheirinho


   A comunidade do Pinheirinho era uma ocupação em um terreno habitado irregularmente por moradores da região devido ao grande déficit habitacional municipal. O número de habitantes é estimado entre 6 e 9 mil moradores (no começo de 2010, esse número era de 5.534), que ocupavam a área abandonada desde 2004. O terreno pertence a uma massa falida da Selecta SA, que tem como proprietário Naji Nahas.

   O Campo dos Alemães, como era conhecido a área onde o terreno da comunidade do Pinheirinho estava, é um bairro localizado na zona sul da cidade de São José dos Campos. O maior bairro da cidade, foi fundado a partir de uma fazenda antigamente denominada Chácara Régio, que pertencia a família Kubitzky. Porém esta família de imigrantes alemães, foi brutalmente assassinada em meados do ano de 1969. A área ficou sem herdeiros, pois seus donos eram bem idosos e solteiros. O caso nunca foi solucionado e, como a família não tinha parentes ou herdeiros, o Estado acabou incorporando a fortuna dos Kubitzky, inclusive os seus imóveis.(3)

E Naji Nahas com isso?

   Naji Robert Nahas é um empresário, atuando como comitente de grande porte na área de investimentos e especulação financeira. Nasceu no Líbano e mais tarde recebeu cidadania brasileira. Chegou ao Brasil no começo da década de 1970 com cinqüenta milhões de dólares para investir e montou um conglomerado de empresas que incluía fábricas, fazendas de produção de coelhos, banco, seguradora e outros. Tornou-se nacionalmente conhecido depois de ter sido acusado como responsável pela quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1989. De acordo com reportagem da revista Veja, Nahas tomava emprestado de bancos e aplicava na bolsa, fazendo negócios consigo mesmo por meio de laranjas e corretores, inflando as cotações. Ante grandes valorizações de ações, os bancos pararam de lhe emprestar, causando quebra em cascata na bolsa do Rio, que nunca se recuperou totalmente.

  Se a família Kubitzky não deixou herdeiros e o terreno passou (a princípio) para as mãos do Estado, como Naji Nahas adquiriu o direito de propriedade de um "patrimônio público"? Até agora o empresário não apresentou nenhum documento confirmando a posse do terreno. O Governo de São Paulo aceitou o terreno, que se dizia fazer parte da massa falida da empresa Selecta, como garantia, sem checar os documentos?(4)

Da repressão a depressão

  A Polícia Militar cumpriu mandado de desocupação do Pinheirinho no domingo, 23 de janeiro, desabrigando um número de pessoas, que varia conforme a fonte da informação de seis mil a nove mil. Definida pela presidenta da República Dilma Rousseff como barbárie, a ação da polícia  na Comunidade do Pinheirinho, na opinião do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, foi uma questão de método. “O método democrático busca ouvir, dialogar com a Justiça e os entes federados. Os governos de São Paulo e de São José dos Campos optaram pelo enfrentamento armado, sem levar conta a necessidade de respeitar a dignidade das pessoas”, afirmou o Ministro em declaração feita no Fórum Social Mundial Temático, realizado em Porto Alegre no mês de janeiro.

  A organização repressiva do Estado tem nas tropas da PM a sua ponta do iceberg. Porém, mais profundas são suas bases, que durante os oito anos, deliberadamente abandonou a comunidade do Pinheirinho, negando acesso à saúde, educação, segurança e à justiça. Após a violentíssima atuação da PM paulista, a imprensa de massa imediatamente apresentou os fundamentos jurídicos da ação, respaldando o Estado na defesa da propriedade privada do conhecido Naji Nahas, réu de vários processos envolvendo evasão de divisas, sonegação de impostos, fraude financeira que somam milhões em prejuízo para o erário. O governador de São Paulo, o prefeito de São José dos Campos, a PM, a guarda municipal e os tribunais asseguraram a legalidade da diáspora da população pobre da comunidade do Pinheirinho, reforçando os laços de interesses com determinados segmentos da elite social em detrimento do bem estar e direito coletivo. (5)

 Assim como no caso do pau-brasil, o Pinheirinho foi derrubado em benefício de poucos, e nenhum dos beneficiados pela sua queda, mora, pretende morar ou liga para quem tem onde morar ou não. O fato é que, mais uma vez, prevaleceu a lógica da propriedade privada dos ricos e poderosos contra o direito coletivo a habitação e a dignidade dos pobres e miseráveis. A mesma lógica tem prevalecido na questão fundiária no Brasil, só foi reproduzida em escala menor e mais localizada no caso do estado de São Paulo. O pior não é ver tal modelo sendo defendido e reproduzido no país, seja com nossas praias, nossas montanhas, nossas florestas... O pior é perceber que grande parte de nossa sociedade ainda não se deu conta que tais atitudes estão intimamente ligadas aos problemas que a própria elite enfrenta no cotidiano social. A defesa da posse de um indivíduo perante o que é necessário para um sentimento social mais harmônico e equilibrado, o que é responsabilidade coletiva, gera conseqüências como a violência, criminalidade, desemprego e depressão. E ao invés de lutar para que haja as mínimas condições de elevação do indivíduo moralmente, necessário para o combate a monstros como a violência de todos os tipos, nascida na revolta de quem não teve nada e é obrigado a olhar um mundo que tem de tudo, sem tocar, sem poder almejar, é o que assusta, avilta. A falta de humanidade, de fraternidade. Meritocracia - como argumentam alguns reacionários de plantão - não é possível se não há igualdade de oportunidades. A dita palavra "nossa" é uma palavrinha que hoje deprime, porque ou você oprime o outro, seja nas idéias ou materialmente, ou você será oprimido. Oprimido, deprimido, comprimido... Palavras que traduzem muita coisa do nosso cotidiano atual.

  Assim como o pau-brasil, explorado por estrangeiros até quase a extinção, e servindo de fonte de enriquecimento para os mesmos, sem deixar nada na terra pátria além de floresta derrubada e terra arrasada, o Pinheirinho também virou mais um grande elefante branco, que será admirado e, quisá usufruído, quando convir ao dono, enquanto do lado de fora da cerca, milhares de brasileiros sonham com moradia sem endividamento, com casa sem área de risco, com bairro sem bandido, com segurança sem polícia, com seu quinhão legítimo. Me pergunto como colonos e índios viam aquelas toras de tom vermelho, sendo derrubadas uma a uma e embarcadas para além mar, deixando apenas o rastro do que já foi nosso e passou a ser deles. Quantos Pinheirinhos precisaremos derrubar até que o natal finde por falta de lugar para pendurar adornos, adorar os bens e o consumismo e rezar pela meia mais cheia do que a do irmão. Tantos quanto pau-brasil?

Fontes:
www.infoescola.com(1)
Revista Consultor Jurídico, 30 de janeiro de 2012(2)
pt.wikipedia.org/wiki/Pinheirinho_%28S%C3%A3o_Jos%C3%A9_dos_Campos%29(3)
pt.wikipedia.org/wiki/Naji_Nahas(4)
Pinheirinho: os limites da democracia burguesa. Por Odair Rodrigues* Publicado no Portal Vermelho.(5)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Um nordestino do sul


  "Escreva uma resenha da suas férias... " Disse meu primo Juninho enquanto nós conversávamos em frente ao estúdio de tatuagem de Shoko, onde ele trabalha, no retão de Manaíra, em João Pessoa, Paraíba. Eu resolvi que iria escrever sobre minhas férias depois que elas acabassem. Escrever e fotografar são meus ofícios, mas certas fotos, certas poesias e artigos, são melhores quando feitos na nossa cabeça, sem intermédio de aparatos técnicos. Aproveitei mais uma vez meu "intervalo do cotidiano", minhas férias, para tecer lindos poemas e belas imagens sobre família, saudade, infância, sobre amor, relacionamento humano e sobre mim, sem precisar parar de viver para fazer isso. O que meu coração guarda tem mais valor e fica impresso muito mais forte do que qualquer foto ou texto que eu possa fazer.

  Nasci no hospital do grupamento de engenharia do exército, na Avenida Epitácio Pessoa, em 1981. Ainda guardo comigo lembranças da casa do meu avô, na Torre, onde morei alguns anos, bem como da casa do Castelo Branco, onde morei até os 6 anos de idade, antes de me mudar com minha mãe, pai e irmão, em 1989, para São Paulo. Assim como tantos, fomos retirantes nordestinos, mesmo que meus pais fossem do tipo retirante que não precisaram viajar em pau de arara ou batalhar emprego de pedreiro ou empregada doméstica. O estudo, a família e  as oportunidades foram a diferença, apesar de saber que tudo isso também tem sua existência devido ao esforço, garra e trabalho que cada um dá na vida. Não é um julgamento de mérito, ser empregada doméstica ou ter ensino superior... É só minha história dentro da malha diversa, e contraditoriamente comum, de histórias brasileiras: O sonho, a oportunidade, o emprego, a metrópole, a família...

  João Pessoa reaviva memórias que as vezes eu achava que já não tinha mais. Mas além das lembranças pessoais, da infância feliz, da época de recém formado quando morei por lá algum tempo, passo por reflexões mais existenciais também, mais concretas, sociais e políticas. Ser um nordestino do sul por tanto tempo me proporciona algumas teorias, que brotam das minhas impressões e dos meus sentimentos por lá. O jeito aberto, dado, sem frescura ou mesmo pudor que o nordestino tem para com a vida, para com o outro, freqüentemente esbarrou durante essas férias com a educação mais fria, por assim dizer, do sul. O ônibus é um termômetro social interessante pra isso. Aqui em Florianópolis, onde moro, pouco se conversa no ônibus, a não ser com conhecidos. Mesmo existindo gente mal educada em todo lugar, aqui ainda há um clima de polidez que descamba para certa indiferença, velada pela educação. Já em Jampa - apelido para os íntimos - quem tá no fundo do ônibus grita para o conhecido na frente, enquanto as pessoas fazem observações umas para as outras sobre os mínimos fatos da vida ou das circunstâncias, sem muito rodeio ou com uma barreira muito densa para aqueles que são desconhecidos. Esse é só um exemplo e um argumento para uma das minhas teorias: O Brasil se traduz muito mais do que qualquer região do país no Nordeste. Lá, a cultura, o jeito e até o clima resumem a imagem de Brasil mais fiel que consigo fazer e mais coerente com aquilo que nos define como povo. O calor humano, que faz faísca na proximidade e ao mesmo tempo aquece. Penso que a educação - aquela de bom trato social - pode servir como desculpa para o distanciamento. Ao mesmo tempo a proximidade, a abertura, permite vivenciar de mais perto as contradições e desvirtudes humanas, muitas vezes evidenciando coisas não tão boas em nós e nos outros. Esse é, para mim, o paradigma Nordeste x Sul, não em um sentido maniqueísta, pois no final da análise, é tudo Brasil mesmo. Aquele dos enlatados culturais e do desenvolvimento econômico e do panelão de cultura misturada aliada ao coronelismo na cabeça e complexos de inferioridade.

  Quando dizia lá em Jampa que moro em Floripa, assim como em quase todo o lugar do Brasil, as pessoas ficavam elogiando onde moro e de certa forma superestimando minha condição: Uaaal Floripa! Mora mal em! Queria tanto ir para lá... Entendo eles, Floripa é um lugar lindo e adoro morar aqui, mas posso afirmar, pelas minhas andanças, que João Pessoa é uma das melhores cidade que já estive em minha vida, e que não deixa nada a desejar em comparação a ilha da magia. Minha experiência morando lá, já como jornalista, teve sim suas frustrações, mas faria tudo de novo se assim fosse preciso. A realidade do mercado de trabalho em Jampa é difícil ainda, apesar do evidente crescimento econômico da cidade, percebido nos carros, no aumento físico do município... Ainda assim, Jampa tem uma dicotomia mais profunda no cotidiano social, tanto moralmente quanto economicamente e culturalmente. Certo peso de valores tem uma medida própria lá. Casar e fazer família é um valor mais abertamente aclamado pela juventude, bem como a relação sobre aparência x essência, oriunda, quem sabe, de uma noção de poder historicamente estabelecida no nordeste. Vi muita gente me dando valor pelo que eu vestia, pelo que tinha, mais do que pelo que sou. Não que isso não exista aqui no sul, existe e muito, mas parece ser algo mais velado, menos exposto, mas não menos evidente na noção social e na relação de luta de classes. No Nordeste nossa herança histórica, cultural e ética ficam a mostra, são jogadas em nossa cara, quase como um tapa, o que dói, mas é melhor do que fingir que não existe, que as coisas não acontecem. O fato é que sempre que vou para a Paraíba respiro Brasil, respiro povo, São João, carnaval de rua, levesa de ser e de estar, noção de sociedade, poder e história. Respiro verdade, contradição, tapioca, Tambaú, feirinha, Ponto de 100 Réis e cajá. Respiro avó, tio, tia, primos, família e, enfim, transpiro amor, mais uma vez.

Sobre casas e família

  Desde de bem pequeno que não tenho uma noção de família grande. Apesar de ter uma bem grande, a distância e o tempo não me proporcionaram tal noção, tal gosto. É quando vou para João Pessoa que consigo um pouco desse sabor. Lá tenho primos as dezena, tios, avó e amigos em quantidade e qualidade que não tive e não tenho aqui no sul. Esse ano eu aproveitei mais esse gosto. Com um pouco mais de tempo de férias, pude rever muita gente da família e amigos. É claro que o tempo, pra quem não teve, sempre é pouco, e que não pude me dedicar como gostaria a todos. Mas já me bastou para refazer as energias, colocar os "pingos no ís" que faltavam na minha compreensão sobre minhas relações humanas e poder dar e receber o carinho furtado na minha história ao longo desses anos. Ainda tenho nas roupas a poeira de Intermares e no chinelo a areia da praia do Bessa. Trouxe de volta uma Serra Limpa, beijos de tias no rosto e saudade dos meus. Trouxe a certeza dos amigos, que mesmo não podendo dar tudo o que queria a eles, pude constatar que ainda existo em suas vidas e trouxe um mala cheia de amor a minha terra e a aqueles que fazem dela a brilhante recordação de um menino nordestino que jamais esquece o gosto do Jambo do pé atrás da casa do Castelo, os amores e dores da juventude e a noção clara de ser um homem que aceita sempre, mas sempre querendo mais...
 
     

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A sinceridade mora no silêncio moral

  Certas coisas não devem ser ditas, faladas ou comentadas. Certas coisas apenas devem ser sentidas. É que a palavra quase sempre esta carregada daquilo que queremos ou daquilo que almejamos. Carregada das nossas interpretações. O problema é que nem sempre nossa régua serve para medir os outros, temos nossa própria medita.  
  Sinceridade não é falar tudo que se pensa, ao contrário do que muita gente acredita. Muitas pessoas justificam grosserias, falta de educação e autoritarismo com a tal sinceridade. Pra mim, ser sincero é uma questão íntima, de veracidade para comigo. As palavras guardam uma força que muitas vezes extrapola nossas intenções.
  Existe sempre uma forma de dizer tudo sem dizer. Se talvez nos déssemos conta do quanto nossos atos falam por si, não falaríamos tanto. Existem temas e fatos que, quando ditos na sua raiz soam como cobrança, como apego, egocentrismo. É mais fácil esperar que o outro, por causa da sua “sinceridade”, compreenda suas atitudes, do que nós mesmos prestarmos atenção naquilo que fazemos.  
  Muitas vezes a sinceridade é apenas um apelo carente de alguém que precisa ser compreendido. Mas, e a compreensão do outro, onde fica? Colocar nos ombros de outro alguém as nossas necessidades de auto-compreensão existencial é fuga, insegurança, medo e egoísmo. Reparar nas atitudes dos outros sem refletir a respeito da própria atitude é um grito do ego que muitas vezes não percebemos. 
  Então, ao invés de fingir ser sincero com os outros, talvez devêssemos ser sinceros de fato com nós mesmos, mas sem comprometer as relações com flechas de palavras atiradas no campo de batalha social. Antes de dizer algo ou questionar alguém, devemos fazer isso com nós mesmos. Antes de julgar as atitudes do outro, deveríamos analisar as nossas próprias atitudes, para não cometermos tantas injustiças. Tem gente que espera uma conduta do próximo sem se dar conta de que a sua própria conduta gera no outro aquilo que ela não quer sentir dentro de si. 
  Não é fácil tal proposição. Eu mesmo luto todos os dias contra meus preconceitos, minhas desconfianças, meus ciúmes e meu ego, tudo em busca de ser justo comigo, me livrando das cobranças e culpas impostas por esse mundo que vivemos. Mas o que me entristece é ver que grande parte das pessoas não se propõe a tal jornada íntima. Tomam atitudes sem perceber os sentimentos e situações que elas geram no outro e no todo, tudo sob a falsa ótica de ser livre e de fazer aquilo que lhe apraz. Liberdade sem consciência é um cavalo selvagem solto no pasto. Ele é livre, mas para onde vai ninguém sabe.
  Se realmente queremos construir boas coisas de forma harmônica é necessário que entendamos nosso papel no mundo e como nos colocamos dentro dos contextos que vivemos. O respeito não está em permitir tudo com uma “liberdade” que beira a indiferença. O respeito está em saber transitar por tantos caminhos, consciente das repercussões que nossas atitudes têm perante a vida comum. Com tal consciência não há mais cobrança, há sim a retidão de uma conduta solidária e fraterna, onde ninguém precisa dizer como temos que ser ou o que temos que fazer.    
  Então ser sincero é algo que vai além do que dizemos. Então respeito é algo que não se cobra, mas sim o fato gerado pelo viver em comum, cientes das próprias falhas e humildes na forma como nos portamos perante o outro. Pelo menos é assim que penso, agora. Não me diga o que pensas se o que tens em mente não vale ser dito. Não me diga o que pensas se isso envolve o seu eu a se resolver. Antes de bradar, mastigue bem, se não as migalhas vão se espalhar nos rostos dos que estão a sua volta e, talvez, nunca mais você possa limpá-las dos rostos sujos. Vamos tentar nos manter atentos, controlando nosso impulsos, tudo em busca de aprender a respeitar a si mesmo e ao próximo, sendo sinceros realmente perante a vida.

Osíris Duarte - jornalista
publicado originalmente em 2009

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Poeminhas: Atire a primeira pedra

As vezes falo o que não devo,
Escrevo o que descrevo,
Com essa cabeça em arritmia,
E esse coração esquizofrênico.

Mas é tudo um reflexo,
Sem nexo aparente,
De um homem calejado,
De sentimentos intermitentes.

Porque eu não calo,
Mas não falo perdido na corrente.
Meus rompantes de paixão,
Meus traços de ilusão,
São passos nunca em vão,
Na direção sã de ser gente,
Ser humano coerente
Que sente e não finge que não.

Não sei de onde veio a coragem,
De seguir meu coração.
Só seu que se isso for bobagem,
Então viver não valeria nenhum perdão.

E atire a primeira pedra,
Quem nunca se jogou.
E se jogue pedra abaixo,
Quem nunca se arriscou.

Porque o que faz de mim um homem,
Me define enfim além do gênero,
É a bravura de lutar pela ternura,
De batalhar pelo amor e confiar no sentimento.

Osíris Duarte

06.11.11

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Enquanto lá fora é bela a primavera, aqui suporta-se o inverno

 Ando meio assustado com os desdobramentos do movimento grevista de trabalhadores do Brasil nos últimos anos. E esse espanto não é com relação as lutas travadas por equidade social e por um universo de trabalho mais humano, porque por isso já se luta há muito tempo. Meu susto é com relação a forma como a sociedade vê, repercute e entende coisas como a greve, os sindicatos, militância e entidades civis. A legitimidade da organização civil, da liberdade de expressão e da responsabilidade cidadã de cobrar, fiscalizar e reivindicar o que nos é de direito, cada vez mais tem sido interpretada como atitudes de desordem, criminosas e individualistas, ou pelo menos alardeados como. O meu espanto ganhou mais corpo nesse momento da conjuntura internacional, no ano de 2011, onde na Grécia, em países da África, na Europa em geral e nos EUA, milhões de pessoas saíram as ruas protestando contra o mesmo destino a qual somos submetidos aqui pelo sistema de organização social largamente disseminado hoje. A diferença para mim está no grau de ilusão por trás do que se constrói como realidade.  Os aplausos pela iniciativa dos "gringos" ecoam na imprensa brasileira em um coro contraditório e hipócrita com relação a abordagem da mesma quanto a militância civil tupiniquim. E enquanto a primavera exala seus perfumes e cores lá fora, aqui trememos ao vento gélido de um inverno sem prazo.       

Dois pesos e duas medidas

  O que pode ser considerado abusivo? O que determina os limites do aceitável, do legítimo, do abuso e do exagero? E quando se trata de defesa dos direitos do trabalho, dos direitos humanos... Até onde vai o limite de conduta coerente com a causa? Qual é e de quem é a régua que determina o que é liberdade e como ela deve ser usada para ser considerada realmente como tal? Parece-me que o grau de "adestramento" possível de se ministrar a uma sociedade atinge seu auge quando ninguém mais se faz tais perguntas. O que determina uma diferenciação de interpretação, entendimento e tratamento não está vinculado com uma idéia maniqueísta, mas sim com o grau de discernimento sobre nossa vida comum e até que ponto não apoiamos nossas construções morais em valores que priorizam nossa condição fundamental de seres biossociais, de coletividade incondicional. Quando se trata de dividir o bolo, tudo mundo quer o melhor pedaço. A matemática básica da divisão está excluída da média do entendimento sobre sociedade no nosso país, a não ser quando se trata de separar e afastar a nós, humanidade. No lugar dela, da divisão, exacerbasse a subtração para amparar a multiplicação. Quanto a soma, ela se restringe ao acumulo promovido pela multiplicação, não pela capacidade e responsabilidade agregadora que ela tem. Aceitar passivamente que determinadas classes da elite social do país aumentem seus salários, seus lucros e, conseqüentemente, seu poder na sociedade, dada a conjuntura de interesses que se mistura com política partidária, marketing empresarial, estratégia de mercado e manutenção do abismo social para hierarquizar nossas relações como coletividade, conferindo, sem critérios justos, poder de alguns seres humanos sobre outros, demonstra a grau de apatia com relação ao papel que entendemos que devemos assumir perante nosso "EU" coletivo. Ascender de classe social passa a ser a meta, não a equidade social. Multiplicar para ascender, não dividir para equiparar, essa é a receita do bolo mais consumido na nossa realidade. O individualismo generalizado dos dias de hoje, por uma questão de sobrevivência da idéia, se disfarça de herói quando se trata de criticar desconstrutivamente qualquer iniciativa coletiva de cunho civil que vise a divisão para promover a soma. O argumento do prejuízo a população serve de blindagem para as manifestações de descontentamento pessoal ou de defesa de interesses que não contemplam as necessidades coletivas. Ai veste-se a máscara de solidariedade porque convém, não porque se entende que ferir qualquer pessoa é ferir nossa humanidade e que estender a mão não é bonitinho e politicamente correto, mas necessário.

Rótulos não são garantia de qualidade

  A palavra "política" provém do vocábulo grego pólis, que eram as Cidades-estado da antiga Grécia, significando a reunião de pessoas que formam uma sociedade. Enfim, política é tudo aquilo que diz respeito coletividade, e exercício do poder na sua concepção mais ampla, no sentido de o que podemos ou não podemos na coletividade. Então, é necessário saber diferenciar política partidária do termo política para poder formular uma opinião mais justa e menos ignorante sobre o assunto. Até dar bom dia para o motorista do ônibus é política, coisa que muita gente que se diz interessada pelo assunto não sabe fazer. O descrédito da política partidária no Brasil tem muito mais a ver com valores sociais do que com discernimento intelectual. Tem mais a ver com o que a política partidária defende do que com o ente político em cada um de nós.  Uma legenda de partido não vem com caráter embutido. Por mais que cada partido defenda no seu discurso uma gama de valores, servindo de critério para formular esse mesmo discurso, que distante da prática acaba servindo unicamente como instrumento de dissimulação, não significa nada além do discurso em si, meramente palavras... E a questão da crítica não reside em escolher para que "time" eu tremulo a bandeira, porque os elencos e a tática são as mesmas, independente da camisa, mas sim qual a bandeira que levanto e o que me levou a defende-la. O não lidar comum com transparência permite que sejamos usados como bucha de canhão numa guerra onde somos vítimas, pelo menos a grande maioria de nós.
 
  Essa visão estreita que temos sobre política contamina todos os meios de exercício e convívio coletivo, pois a política é produto dessa condição coletiva da nossa existência, bem como a comunicação. O vínculo partidário atribuído as entidades sindicais são uma herança da ascensão ao poder através do uso dessas instituições como trampolim para a vida pública. E, apesar de ser verdade que grande parte das entidades sindicais no país defendem posições político-partidárias, que não contemplam as necessidades da militância dos trabalhadores, na sua raiz elas não existem para isso e tal situação não é condição para a existência delas. Os partidos, atrás de formar seus "currais", assaltaram as entidades civis através do uso da paixão e esperança dos trabalhadores em construir um país mais justo e solidário. Não há diferença em partido político na minha avaliação. PT, PSDB, DEM e os demais partidos no país cumprem um papel idêntico na desmobilização do povo, fomento a apatia e exploração da massa em detrimento da manutenção do poder das elites. O conluio de políticos, empresários, magistrados e demais figuras influentes em termos de poder econômico e social representam essa face nefasta do poder que nos oprime, não são apenas alguns seguimentos da elite ou um ou outro sujeito pontual o responsável por tamanha inércia social no Brasil. Portanto, considerando essa visão, comete-se um  equívoco - que muitas vezes é proposital - no julgamento da crítica a situação (governo) como sendo uma posição de quem quer fazer oposição apenas, bem como o juízo sobre a crítica a oposição, como sendo defesa do governo tão somente. Todos são "farinha do mesmo saco" e a responsabilidade cidadã não deve passar por uma escolha  de posicionamento fundamentalista com relação a ideologia ou partido político, assim como se faz muitas vezes com futebol e religião.

O que é decente e o que é indecente. A inversão de valores em uma sociedade tacanha

   O conformismo é um dos sinais mais graves de um pensamento reacionário. Quando esse sentimento de derrota, de entrega, se instala e é percebido em uma sociedade, o fato se torna mais grave ainda. A partir do momento em que não consideramos aviltante, desrespeitoso e indecente a condição humana a qual o sistema nos submete, mas consideramos um abuso, um desrespeito, fazer greve ou lutar pelo que nos é direito, demonstra que há uma falta de solidariedade e de valores profícuos e do bem na nossa sociedade, ao contrário da ilusão que se vende mundo a fora sobre a "República das Bananas". Enquanto poucos desfrutam de uma vida na opulência e no luxo, vivendo em um padrão que no mínimo demonstra um desprezo e um cinismo tremendo para com a realidade de um país tão carente quanto o nosso, a grande maioria se contenta em ficar em baixo da mesa a esperar pelas migalhas do banquete dos ricos, "porque é e sempre foi assim", argumentam alguns covardes.  O fato é que essa característica servil acaba sendo um argumento para viver uma ilusão de segurança e, para aqueles que não querem assumir seu papel e sua responsabilidades como cidadãos, a desculpa perfeita para justificar um comportamento dócil, apequenado e covarde.  A conformidade guarda um grau imenso de preguiça e ignorância, deixando para os outros decidirem sobre nossas vidas para que depois possamos exercer nossa hipocrisia e criticar quem tomou ou teve delegado para si a iniciativa de decidir e construir os ditames da nossa vida comum. Uma posição confortável não é? Sem deveres nem obrigações. Somente discurso, ranço, retórica e inveja. São esses os valores fomentados nessa lógica individualista do sistema. As coisas só são injustas a partir do momento que prejudicam o indivíduo isoladamente, pois ai ele tomará para si as dores da iniqüidade da sociedade, e reivindicará para si o tratamento que considera certo, independente do que é feito ao outro. Desde que seu quinhão esteja garantido, não importa a sorte do próximo.

Sobre o meu umbigo

  Sou jornalista, assessor de imprensa de entidade sindical. Esclarecer isso é questão de responsabilidade para que meu discurso seja contextualizado dentro da minha realidade de trabalho. Isso não significa que defendo toda e qualquer posição de entidade sindicais somente por ser sindicato. Trabalhar no meio me proporciona vivenciar as contradições dos movimentos e identificar as falhas e equívocos. Mas além de poder ver os deslizes e contradições, vejo também as razões nobres e os valores bons que justificam a organização de pessoas independente de governos. Sei qual é o discurso que devo defender e para quem trabalho, e isso no jornalismo, é um luxo intelectual e moral. Grande parte dos meus colegas desconhecem completamente que interesses defendem realmente, a quem servem... Vivem na ilusão de achar que trabalham para a sociedade e que defendem valores comuns. Acham que constroem uma realidade melhor quando na verdade servem de instrumento de fomento a ignorância e a inércia social. O fato de ter clareza sobre quem eu defendo com meu trabalho e o discurso que reforço no exercício da minha profissão é uma questão ética fundamental para que me mantenha jornalista. Durante a greve dos bancários de Florianópolis este ano, Sindicato na qual trabalho, pude constatar, mais uma vez, como o lógica de trabalho nas redações fomenta a ignorância e a desinformação da população. Com o interferência da justiça no movimento grevista, uma novidade com relação aos últimos anos, o imprensa se serviu de pratadas nas distorções de interpretação de magistrados quanto a Lei de Greve e o direito constitucional de liberdade de expressão. No meio de um guerra desigual de informação, a imprensa sindical dos bancários buscou a todo o momento subsidiar a grande imprensa de massa com a possibilidade de exercer jornalismo realmente, apurando com cuidado em busca da verdade, e não alardeando o primeiro discurso que um editor armado de chicote lhe impõe. Mas não foi isso que ocorreu, mais uma vez. Tal domesticação do profissional de imprensa começa na universidade e é concluída no mercado. A censura prévia se encontra nas cabeças dos comunicadores, que limitam sua reflexões e leituras a formas da empresa onde trabalham, tanto para garantir lugar no mercado de trabalho, quando para bajular quem pode lhe permitir alguns minutos de fama esporádicos e algumas massagens no frágil ego.  

  O que me assusta nos dias de hoje vai além de tanta hipocrisia e ignorância. O que me assusta tem um caráter muito mais afetivo. Quanto mais vivencio a militância da sociedade civil, mas me sensibilizo com a falta de sensibilidade da coletividade. Me assusta ver que leva-se mais a sério futebol, religião diversão e fama do que justiça, solidariedade, fraternidade e amor. É contraditório sim e, essa contradição é que me dá calafrios. Ela evidencia uma realidade triste, que tende a solapar nossa esperança. E a luta que me proponho passa mais por saber resistir a esse apelo pela omissão do que por defender ideologias ou posições políticas. O susto não me acovarda, porque é nele que me descubro humano. E no meu nariz resiste o cheiro das flores da primavera que lá fora desponta, mesmo com a ponta gélida do frio do inverno daqui. Ainda ei de plantar essas flores por cá, semente por semente se assim for preciso. Dessa forma, quem sabe um dia, poderemos respirar o ar doce do perfume da primavera e nos deleitar com as cores que decoram essa estação.


Osíris Duarte - Jornalista
Mte / JP 02538 PB - SJSC
osi_duarte@hotmail.com
(48) 9922 0774 Florianópolis - SC
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