sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Falso ego
De quando em vez sou apenas um escárnio de mim,
Plágio barato de quem quero ser.
E nessas horas me religo a realidade, tomo uma dose de humildade,
Pra não seguir sendo essa farsa que não disfarça o embuste que é ser sistêmico,
Mortal arrogante mortal envolto na névoa da sociedade carnal,
Sofre o contágio epidêmico de hipocrisia moral.
Viva a teimosia dos bons, viva...
Osíris Duarte 15.02.13
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Menino dançarino
E eu dançava com pernas que já não são minhas.
Dançava ao som mudo da vida, turba enfurecida de imagens
pensamento.
Eu dançava ao vento, e ainda danço.
Quer coisa mais certa que não ter ranço do tempo?
E ainda ei de conseguir pairar acima dos meus eus
egocêntricos.
Ei de apagar as chagas da minha insegurança.
E ai só vai restar a lembrança do homem criança que não
soube brincar com a vida.
Bandida que roubou minha inocência, mas deixou, ainda bem,
minha esperança.
Osíris Duarte 16.01.13
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Amor: uma brecha se abre para um novo ciclo
A gente se confunde, e mete os pés pelas mãos. Amor não é só sentimento, amor não é querer apenas fugir da solidão. Essa "coisa" é feita de tantas coisas... Amor têm uma grande parte de respeito, amor é ser afeito a liberdade. Amar de verdade não dá espaço para autoridade, não dá brecha para a opressão. Amor, para não ser vão ardor, deve ter uma parte grande de amizade, despindo-se da vaidade e sabendo abraçar o entendimento da individualidade, dentro de cada um que vive nesse mar de coletividade. Olhar o outro com cuidado, amor não deixa de lado aquilo que pulsa alheio ao desejo no coração do ser amado. Somos tantas coisas, que restringir amor a apenas sentimento e um desperdício, um desalento. Amar é o entendimento de que somos, não apenas sou. E de que juntos derrubaremos a iniquidade, seja social ou seja na consciência de humanidade, que ainda se dá a contradição de dizer que ama, mesmo quando nos tolhe a felicidade e a liberdade de trilhar nossos próprios caminhos. Mais um ciclo se fecha, e por essa brecha enxergo a luz de um futuro amoroso de fato, onde os casais não mais se privem do fato de sermos humanos, que as famílias não mais se furtem do calor de sermos unidos, e que as sociedades não se percam mais em meio as desvirtudes de um mundo finito, sem amor.
Osíris Duarte 28.12.12
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Crônicas do Fim do Mundo
É tão verdade que a gente não vê com os olhos, que apesar de na minha vista
o fim desse ano ter mais aspectos de recomeço do que de término, muita gente vê
o fim definitivo. Onde estão esses olhos que veem além das imagens, que criam,
que mediam nossos sentidos? Para aqueles
que preferem considerar o fim ao invés de valorizar os recomeços, digo que o
término justifica as falhas pregressas, e é fácil. Mas a ideia de recomeçar nos
dá o senso de responsabilidade sobre o que passou, as consequências, e o que construímos
para o futuro.
O que têm de gente ganhando dinheiro com essa história de fim do mundo é
absurdo. Se a parada fosse acabar mesmo, é de se refletir o que esse povo vai
fazer com essa grana? Quem sabe apenas algumas horas pra gastar o que nunca
pode seja a intenção... Essa história do calendário maia faz tempo que escuto.
Tipo mais de 10 anos. Só é menos tempo do que as fábulas da branca de neve,
chapeuzinho, Rapunzel e companhia na minha lembrança. O fato é que essa
história tá justificando que o mundo acabe em festa! É! Já viu tanta festa
programada pra um data só?! Todo mundo usando o marketing do fim do mundo pra promover
sua própria "despedida" dos tempos.
Cara, fim do mundo como? Se a gente nem mesmo consegue provar e afirmar
quando ele começou?! O que tem fim, teve começo... Não é? Ainda creio que é
tudo uma questão de pretensão do ser humano, que se acha ao ponto de querer
traçar em tortos contos de fadas-campanhas-de-marketing, os destinos do
universo. Uma frase que vi em uma rede social dia desses resume bem o que penso
disso: O que me preocupa não é o mundo acabar em 2012, mas sim ele continuar
como está em 2013. Pra você que subiu a montanha, se achando o escolhido,
cuidado em! Porque quem fez a escolha foi você, e mesmo no alto da Minas Gerais
dá terremoto, cai uma árvore, dá uma enchente e morre quem tem que morrer meus
caros. Se o critério de escolha meritocrática de Deus for geográfico, que Deus
justo é esse alardeado por quem se diz espiritualizado?!
Pensem: e se não acabar? Voltamos para a mesma
sociedade de merda, para a mesma inércia social, e nos contentamos em esperar
pela próxima profecia, para que Deus venha a Terra fazer a justiça que nós não
fomos capazes de fazer... E assim o barco segue em busca de novos cantos da
seria para justificar os desvios de caráter.
Osíris Duarte 20.12.12
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
A saúde em Santa Catarina
Por Elaine Tavares - Jornalista
As mulheres falavam alto, porque,
afinal, o ônibus é espaço pedagógico. Discutiam a greve dos trabalhadores
da saúde que, em Santa Catarina, já
passa dos 30 dias. No dia anterior trabalhadores do transporte público e os
bancários haviam feito uma paralisação em apoio aos grevistas, provocando horas
de filas e ansiedade, tendo o apoio de estudantes, sindicalistas e militantes
sociais. E, no dia seguinte, a imprensa catarinense tocava o pau em todo mundo,
alegando que o "pobre" governador Raimundo Colombo, não tinha como
dar o aumento "absurdo" que os trabalhadores pediam. Não bastasse
isso, ainda vinham os "baderneiros" dos motoristas e cobradores fazer
confusão.
O tema era esse. As mulheres
discutiam a eterna capacidade da imprensa de distorcer os fatos. Ao longo da
greve, passa para a população a ideia de que o "absurdo" é os
trabalhadores quererem aumento, e não o fato de um governo deixar a população
sem atendimento de saúde simplesmente porque não quer se render à luta. Algumas
pessoas viravam o rosto com um olhar fulminante até as mulheres, numa clara
atitude de discordância. Certamente acreditavam na imprensa e nas inverdades
que cria.
Mas, no banco da frente, uma
outra mulher espiava com o rabo do olho, até que não se conteve. "As
pessoas não sabem o que a gente passa". Explicou que era trabalhadora da
saúde, aposentada há alguns anos. "O que faz os trabalhadores entrarem em
greve agora é que foi tirada do salário a hora-plantão, E é isso que dá alguma
dignidade ao que a gente ganha. Sem isso, o meu salário, por exemplo, fica 800
reais. Como é que uma família vai se sustentar assim?".
Então, enquanto partilhavam o
trajeto, as mulheres foram ouvindo aquela cuidadora de gente. Ela contou que a
maioria dos trabalhadores da saúde é obrigada a ter dois e até três empregos
para garantir um salário digno. E que
isso se reflete no trabalho. "Imagine a gente passar duas, três noites
sem dormir, nos plantões. Quanto erros
não são cometidos? O perigo que isso é? Não porque a gente seja incompetente, é
o cansaço. Fico pensando porque as pessoas não se indignam com isso. Amanhã ou
depois elas vão parar num hospital e vão ser cuidadas por nós, trabalhadores
esgotados, cansados, aturdidos. Isso sim deveria ser discutido".
A greve na saúde é de fato um
transtorno e uma fonte de dor. Os empobrecidos, que sofrem tanto no dia-a-dia,
sem médico, sem atendimento digno, sem acesso aos equipamentos modernos de
diagnósticos, sem opções de tratamento nas cidades do interior, submetidos a
ambulancioterapia, acabam enfrentando mais um obstáculo. Mas, se formos
observar bem, nada muito diferente do cotidiano, o qual só é vencido por conta
desses mesmos trabalhadores, alguns deles verdadeiros heróis, que conseguem
tirar leite de pedra.
O governador Raimundo Colombo,
que não precisa de atendimento público, prefere ignorar o grito dos
trabalhadores. Faz queda de braço e se mantém inflexível. A imprensa reproduz
os argumentos dizendo que o Estado não tem condições de dar a gratificação que
substituiria a hora-plantão. Observem que a reivindicação dos trabalhadores
ainda é modesta: apenas uma gratificação, que viria para substituir a
hora-plantão, diminuída ou retirada. Ainda assim, o governador manda corta
salários, humilha, recebe com gás de pimenta. Ora, não tem condições de dar a
gratificação? Segundo dados do governo, no Portal da Transparência, só em
recursos próprios o estado arrecada por mês 12 milhões para a saúde, gastando
apenas 1,5 com pessoal. Do total do orçamento anual a saúde representa 15% de
gasto. Que tal então cortar os comissionados que têm salários variando de 5 a
12 mil? Ou a publicidade, que consome 110 milhões ao ano? Dinheiro o estado
tem, o fato que não quer investir na saúde. É, porque salário é investimento.
A questão é simples. Um
trabalhador como o da saúde, que atua diretamente na sustentação da vida,
precisa estar bem pago e bem descansado. O certo seria ter um único emprego,
descansar o suficiente para poder cuidar bem de si e dos outros. Mas, o que se
vê é um trabalhador desesperado, esgotado pelo excesso de trabalho, tendo de
atuar com uma estrutura sucateada, um sistema desmontado, equilibrando-se no
milagre. É esse o que cuida do doente, que pode ser o teu filho ou tua mãe. Aí
está o ponto que deveria ser discutido pela imprensa.
O ódio da população deveria
voltar-se para isso. Para o descaso com a saúde pública, com os trabalhadores,
com a estrutura dos postos e dos hospitais. Mas, a maioria das gentes prefere
odiar o trabalhador que luta. E mais, quando um trabalhador, esgotado pela
exploração, comete um erro que custa a vida de alguém, todos os holofotes se
voltam contra ele, apontado como o monstro, o assassino, o irresponsável.
Lembram da enfermeira que injetou café na veia de uma pessoa? Pois é. Essa é
crucificada! Não há nenhum dedo apontando para o Estado, para o governador, o
prefeito ou para o diretor do hospital. A culpa é sempre individual, e do mais
fraco.
O fato é que o desmonte da saúde
é responsabilidade de quem governa, de quem gere os recursos, de quem decide
para onde vai cada centavo. A negativa da gratificação aos trabalhadores é só
uma ponta do problema. Há que pagar os trabalhadores, garantir a sua dignidade,
há que garantir atendimento à população nos postos de saúde, nos hospitais, há
que modernizar a estrutura, garantir os melhores equipamentos. E as pessoas
também precisam se mobilizar para que isso aconteça de fato. Não basta
choramingar. Há que lutar. Mas, para isso seria necessária uma articulação
estadual e nacional, para além do sindical, que pudesse avançar para uma mudança
radical do Estado brasileiro. Esse é o desafio da esquerda nacional. Ser capaz
de gestar no meio das gentes o desejo de um mundo outro, que não esse, no qual
os direitos precisam ser diuturnamente lembrados, na esgrima com o poder. Resta
saber se isso é possível num país onde as lideranças sindicais e sociais estão
- na maioria - domesticadas e cooptadas.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
A luta do negro é uma luta do Brasil
O primeiro transporte negreiro no Brasil foi em 1594. Parece que faz tempo, mais de 400 anos, mas os rastros e consequências dessa viajem dolorosa e imposta aos africanos permanecem até os dias de hoje. Talvez não nos damos conta de o quanto essa história impacta em nossas vidas até o momento presente e, talvez, isso seja o principal motivo para continuarmos a reproduzir a segregação, a desigualdade e a desunião em nossa sociedade.
O que é o Brasil? Um país solidário, ético, para todos? Qual é nossa ideia de povo, de nação... Você já se perguntou? O movimento negro no Brasil não nasce por necessidade de reparação histórica apenas. Ele nasce por uma necessidade muito mais humana e ampla do que alguns discursos gritam. Para explicar, mais algumas pergunta cabem: O que define a qualidade de um ser humano? É sua cor, sua etnia, sua posição social ou seu caráter?
Ao longo da história certas referências de bom, ruim, melhor ou pior nos foram impostas. A visão Eurocêntrica (a Europa como centro) predomina na média do pensamento do brasileiro como referência do que é melhor. Um certo complexo de primo pobre e uma necessidade de ascensão de classe passa por cima da nossa ideia de coletividade, de nação. Mas o que define o Brasil, mais do que o maior pais dos trópicos, do carnaval e do futebol é nossa diversidade cultural e étnica. Então, se o que nos define é nossa indefinição, porque ainda desconsideramos o papel, a importância e a contribuição do povo negro em nossa construção como Nação? Nossa cultura, nossas referências mais marcantes como povo, moram na herança dos Africanos, legado esse de peso de valor muito mais para o mundo do que a Europa nos deixou...
Consciência do que?
Falar de consciência é falar de sensatez. É se contrapor a ignorância de quem não arreda pé de posicionamentos mancos, teimosos e arrogantes. É quando alegremente festejamos nossa cultura, esquecemos que ela é Africana em maior parte do que Europeia. Porque? Ser negro no Brasil ainda significa ser pobre, ser marginal, ser menos. É contraditório. Amar e admirar quem nos oprimiu ao longo da história, e odiar e diminuir quem nos deu o que temos de mais rico e bonito no nosso espírito brasileiro.
Nesse dia em que afirmamos a necessidade de uma consciência sobre o que significa a herança e o papel do negro no Brasil, é importante convocar todos para uma reflexão. Se vivemos todos sobre o mesmo solo, brancos, negros, pardos, amarelos e vermelho, nesta terra onde nos construímos como coloridos, porque ainda os espaços sobre a terra mãe são limitados a cor, posição social e status? O negro ainda é o pobre, o marginal, a referência do que é sujo ou menor, mesmo sendo a maior parte da nação e mesmo não se valendo disso para ter prevalência na sociedade. O que a consciência negra prega não é uma inversão de ditaduras, o que ela propõe é uma noção mais profunda de valorização da nossa cultura e do nosso povo, de forma justa e humana.
A dureza das conquistas
Conquistamos o Estatuto da Igualdade Racial, Políticas de Ação Afirmativa nas Universidades e Institutos Federais. O fato das Cotas Raciais serem oficializadas por força de lei, é a prova cabal de que as conquistas do negro sempre será mais difícil e que há um longo caminho a trilhar para transpor esse modelo de sociedade, abrindo um novo horizonte para construção de um país justo e igualitário.
A participação dos movimentos sociais na luta por igualdade
A invisibilidade histórica levou o Movimento Negro a empreender cruzada, prol a importância do negro no contesto histórico nacional. Na década de 80 o Movimento Sindical Brasileiro se aliou ao Movimento Negro em função da conjuntura brasileira, que expunha em suas entranhas, a segregação em especial do negro na sociedade brasileira. A importância da união dos movimentos sociais vai muito além de solidariedade de classe ou afinidades políticas. Diz respeito a construção de um mundo com lugar para todos, onde o individualismo seja suplantado pela noção de coletividade, com consciência de que as ações individuais afetam o coletivo, e de que a militância social não deve reproduzir modelos de segregação e disputa
Osíris Duarte
Jornalista
Wilson Martins Lalau
Diretor do SINERGIA-SC
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Fotos: Quando morar é um privilégio
Uma história é contada por pessoas. E as pessoas, no plural, é que são a história.
Gente... Gostaria de frisar alguns pontos: Tive autorização dos pais das crianças e das lideranças da ocupação para fazer as fotos. São cerca de 200 famílias, em condições precárias e negligenciadas pelo estado. É duro ver que mesmo com direitos básicos, garantidos pela constituição, essas pessoas serem tratadas como párias, a míngua, e descriminadas. Assim como a saúde e a educação, o direito a moradia é um direito fundamental. Infelizmente o individualismo e o pensamento privativo se sobrepõe ao direito coletivo em um país como o nosso. Não publiquei no facebook e aqui a toa essas fotos, elas servem como um lembrete, depois de tantas promessas de campanha eleitoral, do quanto ainda temos para lutar por uma sociedade onde o seres humanos não sejam apartados por classe, gênero, raça ou credo. Fica aqui a lembrança e o reforço do papel do jornalista também, que se coloca fora de um contexto para relatar, mas perde a lógica quando decide não se envolver. Afinal, qual é a história mais verdadeira. Aquela de quem assiste o filme na sala do cinema, ou do ator que protagonizou a filmagem. É só uma reflexão crítica que acho que podemos fazer.
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