terça-feira, 11 de março de 2014

A moça dança



Naquela tez de brilho largo, preta tez de quem tem valor, corriam as mãos e os pensamentos meus sem dor ou pudor. A moça dança, não cansa e não deixa de lado essa alegria matava qualquer desvio magro de pensamentos gordos. Eu fiquei preso naquele rebolado, embasbacado com certas manias de moças belas. A moça dança na rua, nas curvas e vielas, e eu danço com ela, na curvas... Tinha um quê de sedução, ainda que pese minha tensão estremecida, eram leves aquelas viradas, guinadas, chegadas e partidas, verves contidas nos passos dela. A moça dança bela e, quem dera, ela dançasse comigo sem que eu dance. São coisas que dão sentido ao sentir, quase um transe. Dançar é subir com o espírito leve, cheio do que serve pro bem querer. Por isso dance pra sempre, ventre incessante, vento presente... São lindas aquelas que vivem de som, de ser e de sonho aos olhos meus.

Osíris Duarte

segunda-feira, 10 de março de 2014

Elas sem ponto nem vírgula

Seja princesa bruxa donzela Do que elas são capazes ases que curam sequelas Vielas e ruelas são passarelas embaixo do sapato de qualquer uma delas Quiseras momento discernimento para não atravessar as eras com elas modelas as partes do corpo um porto seguro nas coxas no busto que custo viver sem elas Não gosto de datas não conto com atas vírgulas ou pontos pra registrar importância relevância e indispensável presença até das megeras Todo dia paciência trabalho resiliência num mundo em que pede penitência mesmo na sua inocência Meninas ou moças as ouça se ainda tens razão e experiência Não gosto de datas são repletas de nadas quando o dia é todo dia mania carência eloquência alegria delas Mina ou dama desencana tpm cama chocolate romance não canse dance com ela fina trama fina ela acompanha se for capaz rapaz No mais sou incapaz de viver sem elas e aqui jaz um culpado deveras na conspiração que tramam a luz de velas por um mundo menos deles e mais delas

Osíris Duarte

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Lista


Não desejo um ano bom, desejo uma vida no bem. Os justos sabem o que tem valor. Não desejo dor em pedaços, desejo a flor e os abraços de quem entende sobre sofrer e crescer. Desejamos tanto... Mas em meio ao pranto de quem lamenta esquecemos de realizar. Eu desejava o mar, o tenho, mas continuo desejando... Existem meandros entre ser e estar, e tudo aquilo que se renova, nascendo já indo pra cova, é fato nem planeta que gira. Desejo que vá pra bem longe a ira, os apegos vãos, as ilusões e mentiras. Ciclos não tem começos nem fins, são assim, ciclos, me deixando tonto, mas já já e... pronto! O todo volta para o lugar. De tudo aquilo que desejo, desejei e desejarei existe um fato, de que sonhos são como mato no pasto, necessária fonte de desejos, um beijo, um átimo. Essa vontade de acordar feliz, de me dizer que me refiz, desejo... Uma necessidade de comer queijo de manhã, de cortar a grama no fim de semana, de abraçar os meus. De ver os teus felizes, porque me dizes sobre solidariedade, mas não te apraz a felicidade alheia. Desejo areia no pés no verão, uma canção que toque sem tocar, tocando na cabeça e no coração. Quero tanto que nós demos as mãos sem medo de chuva. Quero uva, alegria pra viúva, e um parto normal nessa vida insana. Quero me alimentar de prana, curtir a semana sem pensar só no final. Quero ser o tal das coisas boas, crescer a toa, sem perceber, como adolescente que cresce da noite pro dia. Não desejo coisas, nem pra mim nem pra você. Desejo que sejas maior que as coisas, maior que as dúvidas, que sejamos fé, amor nesses ciclos de viver.

Osíris Duarte 02.01.14

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Datas

Das tantas coisas pueris, que por um triz, ou mais, passam querendo nos atingir, nos mentir, nos omitir, resisto em mim, persisto enfim nas coisas de coração. E se datas servem pra marcar, lembrar e sorrir, guardo então o que sobra de mais caro e terno, o que sobra pro verão e para o inverno, sem me sentir com sobras. Lembro-me que deixar o que tenho de melhor fluir é questão de sobrevivência na vida, de não sentir perdida a esperança nas pessoas, no amor, nas coisas boas, que se planta e colhe, que voa, e deixa mole a dureza desses espíritos afins. Então, hoje, sem remorso, pensando que posso sempre, deixo quente os sentimentos, elevo bem os pensamentos e não me envergonho mais de ser humano, de ser ciclano ou fulano, de ser sensível e romântico, se preciso for, ser preciso é, nem sempre... Basta a fé família... Basta o pé na trilha e a certeza de que não há arrependimentos quando existe um alento nos olhos dos que gosto, na caridade dos que amam e na clareza que dá a liberdade do humano feliz, a vera, de fato. Por aqui, e onde alcançam meus pensamentos, amor é mato e assim será no que depender de mim.

Luz na paz de nós, hoje, amanhã e sempre.


Osíris Duarte

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Estrada




  Nas tênues curvas, turvas do meu par, encontrava aconchego de lar, tão familiar... E aquela nesga de luz vesga, pela fresta da janela meio aberta, ou meio fechada, passava o calor da tarde acesa, quente como a respiração dela no meu peito. Respeito dias assim. É como capim para o gado, como um agrado enfim, depois do dia de trabalho.  

  Paixões têm fórmulas, às vezes uma pitada de droga, quase sempre um monte de tesão, quase nunca uma dose razoável de razão. Mesmo assim, sei que não demora lá fora a chuva, grossa, curva perigosa, feita para se fazer devagar... Igual rolar sobre as nádegas dela, enquanto o dia tardava e a madrugada nos cobrava o sono, o cio e o sonho. Aquele ar viciado deixava excitado meu gosto por dores. Desejo cores mais claras por de trás da cortina, manchada. Tenho um gosto por curvas sinuosas e tardes de amor que viram dias. Assim como tenho gosto pela falta de tempo verbal para descrever a vida, tão atemporal.

  Paixões têm fórmulas. Mórbidas expectativas de vingança na negação. Tórridas partidas e chegadas no coração. Fósforo que queima a mão quando deixado queimar até o fim, até apagar enfim. As fórmulas têm paixão. E mesmo quando na meia luz, depois de nus, com infindas respirações, formulamos em conjunto que junto é melhor com carinho, sem desviar os caminhos de ninguém. Nas sinuosas ou nas tênues, suas curvas temem as minhas quando vamos além dessa noção, sem noção. Não falo de amor porque está implícito em cada suplício de saudade, em cada resquício de verdade nas paixões. Não falo daquilo tão caro que calo. Está explícito em cada solstício do viver. Que são dias de paixão sem vidas sem amor? São estradas sinuosas, de curvas perigosas, onde gozas sem saber que prosa irá dizer e se há lar para não se perder. Naquela infinda sensação, fiquei com o amor.

  Ela me deu um beijo meio termo. Meio na boca meio na bochecha. Meio te amo meio te odeio. Mesmo com o cheiro do café na cozinha, ela tinha nos olhos um ar de sozinha, me deixa. Foi à deixa. Não há estradas que não devem ser percorridas, perdida só pode ser a ignorância, não a partida. É como pegar carona, deitar em lona e ter prazer de vida. Estradas são meios, não fins, mesmo que no fim, quase às vezes, me vejo no meio delas.   

Osíris Duarte

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

João que podia ser Maria, que podia ser Pedro...


João era preto, desrespeito da ausência de cor. E aquilo que João tem no peito, bate curto, apertado e estreito, quando no leito João deita pálido, sem cor. João morreu no beco, escuro segredo no muro branco do bar. Ele não viu o mar, nem o azul do amor costeiro, João era um estrangeiro no próprio lar de dor. Ele era direito, trabalhador de respeito, na calçada inspirava medo, em casa esplendor. João podia ser José, Maria ou Pedro, ele corre a pista atrás de um beijo, doce afago dos desejos. João bebia cachaça no sábado, café no domingo e chuva na segunda. Ele senta a bunda no coletivo, a mesma bunda que consigo sente, que no coletivo senta. Ele tenta, tentava... João arrastava as solas brancas do pé negro, na face escura o sorriso luz, sem segredo, andava a esmo na vida cinza. João morreu no beco, nas mãos o pão, o leite e o medo, enquanto o mundo lhe dizia preto não é cor, é ausência de cor e saiba, de cór, isso, morre bem quisto pelo preconceito, mais um preto, por favor.

Osíris Duarte 20.11.13

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sobre abóboras, bruxas e sacis



Por Osíris Duarte

 Quando eu era criança - e olha que não faz tanto tempo em! - Natal era uma festa cristã, assim como a Páscoa. Festa junina, ou de São João, nome mais comum para nordestinos como eu, era expressão cultural de valor e, o folclore brasileiro, parte integrante das manifestações culturais na minha época, era bem presente no meu imaginário. Cresci lendo livros sobre Curupiras, Sacis e mulas sem cabeças, juntamente com aqueles deliciosos livros da Coleção Vagalume, como A Ilha Perdida, O escaravelho do Diabo... Todos redigidos por talentosos escritores brasileiros, voltados para o público infanto-juvenil. Mas cada vez mais percebo mudanças, que nem sempre me agradam, no consumo de conteúdo artístico, cultural e literário do jovem brasileiro.
  Para o educador, pedagogo, Paulo Freire, sociedades colonizadas ou invadidas culturalmente são sociedades alienadas. De fato, o que temos historicamente no Brasil é a manutenção de um processo colonial, com finalidade de manter na inércia o processo emancipatório da sociedade e do povo brasileiro, na busca pelo reforço e construção de valores coerentes com as origens étnicas e culturais da nossa sociedade. A forma predatória estabelecida pela colonização em terras tupiniquins – exploração econômica, escravidão, concentração das terras, mandonismos, falta de liberdade de expressão e de livre iniciativa – deixou uma herança nefasta na construção de valores dentro de nossa sociedade. 
  A falta de participação popular na vida pública do país ao longo da história, mantendo governantes em uma esfera de poder externo ao povo, os senhores das terras, os fiscais da Coroa, nobres membros da Coroa, etc, criou uma consciência hospedeira da opressão, consciência habituada a seguir leis e preceitos de outros em vez de consciência livre e criadora, necessária para um regime democrático. Mas, mesmo com a criação do Estado Democrático de Direito no Brasil, nunca houve o desejo dos governantes, sejam os colonizadores do passado ou os atuais, de estabelecerem aqui uma Nação e, “importar” as soluções, os modelos, inclusive valores, através da música, manifestações culturais, bens de consumo e modelos políticos seria uma solução.      
  Levar e conta o que nos define como povo é um processo de libertação e construção de unidade. Aquilo que nos define como indivíduo está diretamente vinculado ao que nos define como cidadãos e como povo. Problemas que afligem outros povos passam a ser nosso problema devido à reprodução de expressões culturais e sociais. Ao mesmo tempo virtudes e benefícios advindos de nossa terra e nosso povo vão sendo enterrados. O que me assusta, é que isso denota uma tendência para a entrega a escravidão, uma preguiça de ser brasileiro, de dar valor ao que nos definiria como Nação livre e soberana. De fato, os gringos valorizam nossa cultura muito mais que nós. Talvez seja por isso que valorizamos a deles: certa necessidade de autodepreciação, uma armadilha que dá a falsa segurança de que podemos nos eximir da responsabilidade de cuidar uns dos outros e de nossa terra.
  Quando pirralho, criança de nariz escorrido, eu brincava de índio, soltava pipa, e acreditava em estórias. E se hoje eu sei o valor de um indígena, da capoeira, do saci, da mata atlântica e da Amazônia... Se eu sei hoje o valor da luta das minorias sociais no país, sei o que é Brasil na carne e no sangue, é por causa de Machado de Assis, folclore, São João, forró, carnaval de rua, com esguicho de água e fantasia, bois e milho. Se hoje eu sou brasileiro, é porque fui privilegiado com a oportunidade de sê-lo, coisa que parece cada vez mais escassa.