segunda-feira, 24 de março de 2014

Impassível


Sempre é possível, para quem é impassível, justificar o impossível, o indigerível, com perfumaria incrível, filosofia imbatível e hipocrisia irresistível. Indivisível é quando esquecem de ver o invisível, coisa de insensível, viver na ilusão plausível da negligência do virtuosismo em detrimento do aprazível gozo da própria incoerência. Ai, o outro se torna desprezível na sua busca por existência. Indivíduo que se apaga em meio a desistência dos outros "eus". Não creio mais em resistência do sensível, só na resiliência do que ainda é crível dentro de mim. 

Osíris Duarte

quinta-feira, 20 de março de 2014

Outono


Frágeis como folhas ao vento, secas que caem no chão, meus pensamentos voam a tempo de minguar, dormir, florescer e brilhar, seguindo o ritmo de cada estação. Hoje reside outono onde já morou verão. E antes do sono do inverno, faço um afago terno nas ramas secas da atribulação, na expectativa de que o que quero virá no fim do inverno, uma primavera cheia de flores, odores e ressurreição.

Osíris Duarte  20.03.14

terça-feira, 11 de março de 2014

A moça dança



Naquela tez de brilho largo, preta tez de quem tem valor, corriam as mãos e os pensamentos meus sem dor ou pudor. A moça dança, não cansa e não deixa de lado essa alegria matava qualquer desvio magro de pensamentos gordos. Eu fiquei preso naquele rebolado, embasbacado com certas manias de moças belas. A moça dança na rua, nas curvas e vielas, e eu danço com ela, na curvas... Tinha um quê de sedução, ainda que pese minha tensão estremecida, eram leves aquelas viradas, guinadas, chegadas e partidas, verves contidas nos passos dela. A moça dança bela e, quem dera, ela dançasse comigo sem que eu dance. São coisas que dão sentido ao sentir, quase um transe. Dançar é subir com o espírito leve, cheio do que serve pro bem querer. Por isso dance pra sempre, ventre incessante, vento presente... São lindas aquelas que vivem de som, de ser e de sonho aos olhos meus.

Osíris Duarte

segunda-feira, 10 de março de 2014

Elas sem ponto nem vírgula

Seja princesa bruxa donzela Do que elas são capazes ases que curam sequelas Vielas e ruelas são passarelas embaixo do sapato de qualquer uma delas Quiseras momento discernimento para não atravessar as eras com elas modelas as partes do corpo um porto seguro nas coxas no busto que custo viver sem elas Não gosto de datas não conto com atas vírgulas ou pontos pra registrar importância relevância e indispensável presença até das megeras Todo dia paciência trabalho resiliência num mundo em que pede penitência mesmo na sua inocência Meninas ou moças as ouça se ainda tens razão e experiência Não gosto de datas são repletas de nadas quando o dia é todo dia mania carência eloquência alegria delas Mina ou dama desencana tpm cama chocolate romance não canse dance com ela fina trama fina ela acompanha se for capaz rapaz No mais sou incapaz de viver sem elas e aqui jaz um culpado deveras na conspiração que tramam a luz de velas por um mundo menos deles e mais delas

Osíris Duarte

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Lista


Não desejo um ano bom, desejo uma vida no bem. Os justos sabem o que tem valor. Não desejo dor em pedaços, desejo a flor e os abraços de quem entende sobre sofrer e crescer. Desejamos tanto... Mas em meio ao pranto de quem lamenta esquecemos de realizar. Eu desejava o mar, o tenho, mas continuo desejando... Existem meandros entre ser e estar, e tudo aquilo que se renova, nascendo já indo pra cova, é fato nem planeta que gira. Desejo que vá pra bem longe a ira, os apegos vãos, as ilusões e mentiras. Ciclos não tem começos nem fins, são assim, ciclos, me deixando tonto, mas já já e... pronto! O todo volta para o lugar. De tudo aquilo que desejo, desejei e desejarei existe um fato, de que sonhos são como mato no pasto, necessária fonte de desejos, um beijo, um átimo. Essa vontade de acordar feliz, de me dizer que me refiz, desejo... Uma necessidade de comer queijo de manhã, de cortar a grama no fim de semana, de abraçar os meus. De ver os teus felizes, porque me dizes sobre solidariedade, mas não te apraz a felicidade alheia. Desejo areia no pés no verão, uma canção que toque sem tocar, tocando na cabeça e no coração. Quero tanto que nós demos as mãos sem medo de chuva. Quero uva, alegria pra viúva, e um parto normal nessa vida insana. Quero me alimentar de prana, curtir a semana sem pensar só no final. Quero ser o tal das coisas boas, crescer a toa, sem perceber, como adolescente que cresce da noite pro dia. Não desejo coisas, nem pra mim nem pra você. Desejo que sejas maior que as coisas, maior que as dúvidas, que sejamos fé, amor nesses ciclos de viver.

Osíris Duarte 02.01.14

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Datas

Das tantas coisas pueris, que por um triz, ou mais, passam querendo nos atingir, nos mentir, nos omitir, resisto em mim, persisto enfim nas coisas de coração. E se datas servem pra marcar, lembrar e sorrir, guardo então o que sobra de mais caro e terno, o que sobra pro verão e para o inverno, sem me sentir com sobras. Lembro-me que deixar o que tenho de melhor fluir é questão de sobrevivência na vida, de não sentir perdida a esperança nas pessoas, no amor, nas coisas boas, que se planta e colhe, que voa, e deixa mole a dureza desses espíritos afins. Então, hoje, sem remorso, pensando que posso sempre, deixo quente os sentimentos, elevo bem os pensamentos e não me envergonho mais de ser humano, de ser ciclano ou fulano, de ser sensível e romântico, se preciso for, ser preciso é, nem sempre... Basta a fé família... Basta o pé na trilha e a certeza de que não há arrependimentos quando existe um alento nos olhos dos que gosto, na caridade dos que amam e na clareza que dá a liberdade do humano feliz, a vera, de fato. Por aqui, e onde alcançam meus pensamentos, amor é mato e assim será no que depender de mim.

Luz na paz de nós, hoje, amanhã e sempre.


Osíris Duarte

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Estrada




  Nas tênues curvas, turvas do meu par, encontrava aconchego de lar, tão familiar... E aquela nesga de luz vesga, pela fresta da janela meio aberta, ou meio fechada, passava o calor da tarde acesa, quente como a respiração dela no meu peito. Respeito dias assim. É como capim para o gado, como um agrado enfim, depois do dia de trabalho.  

  Paixões têm fórmulas, às vezes uma pitada de droga, quase sempre um monte de tesão, quase nunca uma dose razoável de razão. Mesmo assim, sei que não demora lá fora a chuva, grossa, curva perigosa, feita para se fazer devagar... Igual rolar sobre as nádegas dela, enquanto o dia tardava e a madrugada nos cobrava o sono, o cio e o sonho. Aquele ar viciado deixava excitado meu gosto por dores. Desejo cores mais claras por de trás da cortina, manchada. Tenho um gosto por curvas sinuosas e tardes de amor que viram dias. Assim como tenho gosto pela falta de tempo verbal para descrever a vida, tão atemporal.

  Paixões têm fórmulas. Mórbidas expectativas de vingança na negação. Tórridas partidas e chegadas no coração. Fósforo que queima a mão quando deixado queimar até o fim, até apagar enfim. As fórmulas têm paixão. E mesmo quando na meia luz, depois de nus, com infindas respirações, formulamos em conjunto que junto é melhor com carinho, sem desviar os caminhos de ninguém. Nas sinuosas ou nas tênues, suas curvas temem as minhas quando vamos além dessa noção, sem noção. Não falo de amor porque está implícito em cada suplício de saudade, em cada resquício de verdade nas paixões. Não falo daquilo tão caro que calo. Está explícito em cada solstício do viver. Que são dias de paixão sem vidas sem amor? São estradas sinuosas, de curvas perigosas, onde gozas sem saber que prosa irá dizer e se há lar para não se perder. Naquela infinda sensação, fiquei com o amor.

  Ela me deu um beijo meio termo. Meio na boca meio na bochecha. Meio te amo meio te odeio. Mesmo com o cheiro do café na cozinha, ela tinha nos olhos um ar de sozinha, me deixa. Foi à deixa. Não há estradas que não devem ser percorridas, perdida só pode ser a ignorância, não a partida. É como pegar carona, deitar em lona e ter prazer de vida. Estradas são meios, não fins, mesmo que no fim, quase às vezes, me vejo no meio delas.   

Osíris Duarte