quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Poeminhas: Atire a primeira pedra

As vezes falo o que não devo,
Escrevo o que descrevo,
Com essa cabeça em arritmia,
E esse coração esquizofrênico.

Mas é tudo um reflexo,
Sem nexo aparente,
De um homem calejado,
De sentimentos intermitentes.

Porque eu não calo,
Mas não falo perdido na corrente.
Meus rompantes de paixão,
Meus traços de ilusão,
São passos nunca em vão,
Na direção sã de ser gente,
Ser humano coerente
Que sente e não finge que não.

Não sei de onde veio a coragem,
De seguir meu coração.
Só seu que se isso for bobagem,
Então viver não valeria nenhum perdão.

E atire a primeira pedra,
Quem nunca se jogou.
E se jogue pedra abaixo,
Quem nunca se arriscou.

Porque o que faz de mim um homem,
Me define enfim além do gênero,
É a bravura de lutar pela ternura,
De batalhar pelo amor e confiar no sentimento.

Osíris Duarte

06.11.11

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Enquanto lá fora é bela a primavera, aqui suporta-se o inverno

 Ando meio assustado com os desdobramentos do movimento grevista de trabalhadores do Brasil nos últimos anos. E esse espanto não é com relação as lutas travadas por equidade social e por um universo de trabalho mais humano, porque por isso já se luta há muito tempo. Meu susto é com relação a forma como a sociedade vê, repercute e entende coisas como a greve, os sindicatos, militância e entidades civis. A legitimidade da organização civil, da liberdade de expressão e da responsabilidade cidadã de cobrar, fiscalizar e reivindicar o que nos é de direito, cada vez mais tem sido interpretada como atitudes de desordem, criminosas e individualistas, ou pelo menos alardeados como. O meu espanto ganhou mais corpo nesse momento da conjuntura internacional, no ano de 2011, onde na Grécia, em países da África, na Europa em geral e nos EUA, milhões de pessoas saíram as ruas protestando contra o mesmo destino a qual somos submetidos aqui pelo sistema de organização social largamente disseminado hoje. A diferença para mim está no grau de ilusão por trás do que se constrói como realidade.  Os aplausos pela iniciativa dos "gringos" ecoam na imprensa brasileira em um coro contraditório e hipócrita com relação a abordagem da mesma quanto a militância civil tupiniquim. E enquanto a primavera exala seus perfumes e cores lá fora, aqui trememos ao vento gélido de um inverno sem prazo.       

Dois pesos e duas medidas

  O que pode ser considerado abusivo? O que determina os limites do aceitável, do legítimo, do abuso e do exagero? E quando se trata de defesa dos direitos do trabalho, dos direitos humanos... Até onde vai o limite de conduta coerente com a causa? Qual é e de quem é a régua que determina o que é liberdade e como ela deve ser usada para ser considerada realmente como tal? Parece-me que o grau de "adestramento" possível de se ministrar a uma sociedade atinge seu auge quando ninguém mais se faz tais perguntas. O que determina uma diferenciação de interpretação, entendimento e tratamento não está vinculado com uma idéia maniqueísta, mas sim com o grau de discernimento sobre nossa vida comum e até que ponto não apoiamos nossas construções morais em valores que priorizam nossa condição fundamental de seres biossociais, de coletividade incondicional. Quando se trata de dividir o bolo, tudo mundo quer o melhor pedaço. A matemática básica da divisão está excluída da média do entendimento sobre sociedade no nosso país, a não ser quando se trata de separar e afastar a nós, humanidade. No lugar dela, da divisão, exacerbasse a subtração para amparar a multiplicação. Quanto a soma, ela se restringe ao acumulo promovido pela multiplicação, não pela capacidade e responsabilidade agregadora que ela tem. Aceitar passivamente que determinadas classes da elite social do país aumentem seus salários, seus lucros e, conseqüentemente, seu poder na sociedade, dada a conjuntura de interesses que se mistura com política partidária, marketing empresarial, estratégia de mercado e manutenção do abismo social para hierarquizar nossas relações como coletividade, conferindo, sem critérios justos, poder de alguns seres humanos sobre outros, demonstra a grau de apatia com relação ao papel que entendemos que devemos assumir perante nosso "EU" coletivo. Ascender de classe social passa a ser a meta, não a equidade social. Multiplicar para ascender, não dividir para equiparar, essa é a receita do bolo mais consumido na nossa realidade. O individualismo generalizado dos dias de hoje, por uma questão de sobrevivência da idéia, se disfarça de herói quando se trata de criticar desconstrutivamente qualquer iniciativa coletiva de cunho civil que vise a divisão para promover a soma. O argumento do prejuízo a população serve de blindagem para as manifestações de descontentamento pessoal ou de defesa de interesses que não contemplam as necessidades coletivas. Ai veste-se a máscara de solidariedade porque convém, não porque se entende que ferir qualquer pessoa é ferir nossa humanidade e que estender a mão não é bonitinho e politicamente correto, mas necessário.

Rótulos não são garantia de qualidade

  A palavra "política" provém do vocábulo grego pólis, que eram as Cidades-estado da antiga Grécia, significando a reunião de pessoas que formam uma sociedade. Enfim, política é tudo aquilo que diz respeito coletividade, e exercício do poder na sua concepção mais ampla, no sentido de o que podemos ou não podemos na coletividade. Então, é necessário saber diferenciar política partidária do termo política para poder formular uma opinião mais justa e menos ignorante sobre o assunto. Até dar bom dia para o motorista do ônibus é política, coisa que muita gente que se diz interessada pelo assunto não sabe fazer. O descrédito da política partidária no Brasil tem muito mais a ver com valores sociais do que com discernimento intelectual. Tem mais a ver com o que a política partidária defende do que com o ente político em cada um de nós.  Uma legenda de partido não vem com caráter embutido. Por mais que cada partido defenda no seu discurso uma gama de valores, servindo de critério para formular esse mesmo discurso, que distante da prática acaba servindo unicamente como instrumento de dissimulação, não significa nada além do discurso em si, meramente palavras... E a questão da crítica não reside em escolher para que "time" eu tremulo a bandeira, porque os elencos e a tática são as mesmas, independente da camisa, mas sim qual a bandeira que levanto e o que me levou a defende-la. O não lidar comum com transparência permite que sejamos usados como bucha de canhão numa guerra onde somos vítimas, pelo menos a grande maioria de nós.
 
  Essa visão estreita que temos sobre política contamina todos os meios de exercício e convívio coletivo, pois a política é produto dessa condição coletiva da nossa existência, bem como a comunicação. O vínculo partidário atribuído as entidades sindicais são uma herança da ascensão ao poder através do uso dessas instituições como trampolim para a vida pública. E, apesar de ser verdade que grande parte das entidades sindicais no país defendem posições político-partidárias, que não contemplam as necessidades da militância dos trabalhadores, na sua raiz elas não existem para isso e tal situação não é condição para a existência delas. Os partidos, atrás de formar seus "currais", assaltaram as entidades civis através do uso da paixão e esperança dos trabalhadores em construir um país mais justo e solidário. Não há diferença em partido político na minha avaliação. PT, PSDB, DEM e os demais partidos no país cumprem um papel idêntico na desmobilização do povo, fomento a apatia e exploração da massa em detrimento da manutenção do poder das elites. O conluio de políticos, empresários, magistrados e demais figuras influentes em termos de poder econômico e social representam essa face nefasta do poder que nos oprime, não são apenas alguns seguimentos da elite ou um ou outro sujeito pontual o responsável por tamanha inércia social no Brasil. Portanto, considerando essa visão, comete-se um  equívoco - que muitas vezes é proposital - no julgamento da crítica a situação (governo) como sendo uma posição de quem quer fazer oposição apenas, bem como o juízo sobre a crítica a oposição, como sendo defesa do governo tão somente. Todos são "farinha do mesmo saco" e a responsabilidade cidadã não deve passar por uma escolha  de posicionamento fundamentalista com relação a ideologia ou partido político, assim como se faz muitas vezes com futebol e religião.

O que é decente e o que é indecente. A inversão de valores em uma sociedade tacanha

   O conformismo é um dos sinais mais graves de um pensamento reacionário. Quando esse sentimento de derrota, de entrega, se instala e é percebido em uma sociedade, o fato se torna mais grave ainda. A partir do momento em que não consideramos aviltante, desrespeitoso e indecente a condição humana a qual o sistema nos submete, mas consideramos um abuso, um desrespeito, fazer greve ou lutar pelo que nos é direito, demonstra que há uma falta de solidariedade e de valores profícuos e do bem na nossa sociedade, ao contrário da ilusão que se vende mundo a fora sobre a "República das Bananas". Enquanto poucos desfrutam de uma vida na opulência e no luxo, vivendo em um padrão que no mínimo demonstra um desprezo e um cinismo tremendo para com a realidade de um país tão carente quanto o nosso, a grande maioria se contenta em ficar em baixo da mesa a esperar pelas migalhas do banquete dos ricos, "porque é e sempre foi assim", argumentam alguns covardes.  O fato é que essa característica servil acaba sendo um argumento para viver uma ilusão de segurança e, para aqueles que não querem assumir seu papel e sua responsabilidades como cidadãos, a desculpa perfeita para justificar um comportamento dócil, apequenado e covarde.  A conformidade guarda um grau imenso de preguiça e ignorância, deixando para os outros decidirem sobre nossas vidas para que depois possamos exercer nossa hipocrisia e criticar quem tomou ou teve delegado para si a iniciativa de decidir e construir os ditames da nossa vida comum. Uma posição confortável não é? Sem deveres nem obrigações. Somente discurso, ranço, retórica e inveja. São esses os valores fomentados nessa lógica individualista do sistema. As coisas só são injustas a partir do momento que prejudicam o indivíduo isoladamente, pois ai ele tomará para si as dores da iniqüidade da sociedade, e reivindicará para si o tratamento que considera certo, independente do que é feito ao outro. Desde que seu quinhão esteja garantido, não importa a sorte do próximo.

Sobre o meu umbigo

  Sou jornalista, assessor de imprensa de entidade sindical. Esclarecer isso é questão de responsabilidade para que meu discurso seja contextualizado dentro da minha realidade de trabalho. Isso não significa que defendo toda e qualquer posição de entidade sindicais somente por ser sindicato. Trabalhar no meio me proporciona vivenciar as contradições dos movimentos e identificar as falhas e equívocos. Mas além de poder ver os deslizes e contradições, vejo também as razões nobres e os valores bons que justificam a organização de pessoas independente de governos. Sei qual é o discurso que devo defender e para quem trabalho, e isso no jornalismo, é um luxo intelectual e moral. Grande parte dos meus colegas desconhecem completamente que interesses defendem realmente, a quem servem... Vivem na ilusão de achar que trabalham para a sociedade e que defendem valores comuns. Acham que constroem uma realidade melhor quando na verdade servem de instrumento de fomento a ignorância e a inércia social. O fato de ter clareza sobre quem eu defendo com meu trabalho e o discurso que reforço no exercício da minha profissão é uma questão ética fundamental para que me mantenha jornalista. Durante a greve dos bancários de Florianópolis este ano, Sindicato na qual trabalho, pude constatar, mais uma vez, como o lógica de trabalho nas redações fomenta a ignorância e a desinformação da população. Com o interferência da justiça no movimento grevista, uma novidade com relação aos últimos anos, o imprensa se serviu de pratadas nas distorções de interpretação de magistrados quanto a Lei de Greve e o direito constitucional de liberdade de expressão. No meio de um guerra desigual de informação, a imprensa sindical dos bancários buscou a todo o momento subsidiar a grande imprensa de massa com a possibilidade de exercer jornalismo realmente, apurando com cuidado em busca da verdade, e não alardeando o primeiro discurso que um editor armado de chicote lhe impõe. Mas não foi isso que ocorreu, mais uma vez. Tal domesticação do profissional de imprensa começa na universidade e é concluída no mercado. A censura prévia se encontra nas cabeças dos comunicadores, que limitam sua reflexões e leituras a formas da empresa onde trabalham, tanto para garantir lugar no mercado de trabalho, quando para bajular quem pode lhe permitir alguns minutos de fama esporádicos e algumas massagens no frágil ego.  

  O que me assusta nos dias de hoje vai além de tanta hipocrisia e ignorância. O que me assusta tem um caráter muito mais afetivo. Quanto mais vivencio a militância da sociedade civil, mas me sensibilizo com a falta de sensibilidade da coletividade. Me assusta ver que leva-se mais a sério futebol, religião diversão e fama do que justiça, solidariedade, fraternidade e amor. É contraditório sim e, essa contradição é que me dá calafrios. Ela evidencia uma realidade triste, que tende a solapar nossa esperança. E a luta que me proponho passa mais por saber resistir a esse apelo pela omissão do que por defender ideologias ou posições políticas. O susto não me acovarda, porque é nele que me descubro humano. E no meu nariz resiste o cheiro das flores da primavera que lá fora desponta, mesmo com a ponta gélida do frio do inverno daqui. Ainda ei de plantar essas flores por cá, semente por semente se assim for preciso. Dessa forma, quem sabe um dia, poderemos respirar o ar doce do perfume da primavera e nos deleitar com as cores que decoram essa estação.


Osíris Duarte - Jornalista
Mte / JP 02538 PB - SJSC
osi_duarte@hotmail.com
(48) 9922 0774 Florianópolis - SC
www.palavraodoosi.blogspot.com

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

No nosso compasso


Te passo ao compasso das coisas afim.
Assáz é a vida no porém?
Repasso o amor que pulsa em mim,
No espaço largo do braço amigo da vida sem fim.

Se já não basto não é por falta de abraço,
Nem por sentir demais.
É porque a vida, campo vasto,
Tem muito mais pasto do que pude dar.

Então guardo em mim a música,
Que toca no silêncio do meu peito,
Um compasso interno no éco perfeito,
De um ritmo afeito as batidas do meu coração.

Osíris Duarte 12.06.11

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Paródias de Cartier Bresson - por Osíris Duarte
























Na tentativa de parodiar fotos do francês Henri Cartier Bresson fiz esse ensaio, buscando não só reproduzir fotos dele (cena e modelos), como também busquei uma simulação do momento decisivo Bressoniano, já que todos os modelos são anônimos abordados nas ruas de Florianópolis-SC, e que todas as fotos foram feitas com menos de três cliques, buscando preservar ao máximo a leitura do novo spectator/spectrum (tio Barthes!) da foto na tentativa de criar um novo "isso foi" em cima do antigo. Tem um aspecto de metalinguagem já que os modelos reproduzem as cenas da forma como veem, preservando na nova imagem características das antigas de Bresson. Fica aqui meu agradecimento aos que se prestaram a ajudar na confecção do trabalho fotográfico. 


Osíris Duarte

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Entre o que imagina e a faxina

Arrumo a casa esta manhã.
Estava tudo fora do lugar.
Sonhos no cesto de roupas,
Medos nas estantes,
Segredos na sala de estar.

Lavei a louça e estendi a roupa,
Cuidei do gato e varri a tristeza.
Coloquei a vida para andar,
Busquei novamente a beleza...

Vi em mim um asco particular.
Um traço do mau que há em fim.
Aquilo que rasteja parco,
Fraco a me fraquejar.
Aquilo que não queria mais em mim.

Aí decidi ser desabrochar.
Um ser que a mim poderia orgulhar.
Crescer em meio ao estar,
Nas graças do amanhecer.

Hoje sou só perdão,
Daquilo, inclusive, que até então,
Fugia-me a compreensão maior.
E de cor eu recitei,
Um poema que não sei,
Que criei ao desprazer,
De ser quem eu já não sei mais.

Mas vivaz é a vontade de criar,
De imaginar o imponderável.
De amar o inexplicável,
Da luz afável do fato,
Além do meu desastrado
Acertado jeito de ser.

Osíris Duarte  24.06.11

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Meu olhar é tão meu quanto o seu


 O que determina o olhar de um fotógrafo? Muitos podem afirmar com tranqüilidade que as condicionantes de um olhar residem na constituição particular de um indivíduo, o que explica apenas em parte o questionamento. Considerar o universo que pressupõe um ser humano pode acabar por descambar em conjecturas que não explicam mesmo o que determinou um ângulo, uma composição ou uma razão para registro documental. Para um jornalista, o olhar deve transpor o que é determinado apenas pela visão particular, no sentido de corresponder ao exercício da profissão que guarda expectativas quanto ao fazer fotográfico. Mas, mesmo assim, o ser humano continua lá, o ser político, ideológico, afetivo, continua lá. E é por isso que não existe um olhar único quando se trata da fotografia, assim como não há compreensão única quando nos prestamos ao exercício da crítica.

Estive na África em fevereiro de 2011 para realizar uma cobertura jornalística do 11° Fórum Social Mundial, em Dakar, Capital do Senegal. Mas meus planos tinham também o trabalho fotográfico como objetivo. Sendo assim, segui viajem a procura de imagens do continente africano. Passei por mais dois países além do Senegal e registrei com minha Nikon D3000 o povo e o continente africano, pelo menos na parte por onde passei. A viajem gerou, além dos textos jornalísticos, um trabalho fotográfico intitulado: Nosso Eu Africano – Uma viajem particular pelo Senegal, Cabo Verde e Guiné-Bissau. As fotos coloridas, impressas em papel fosco e dispostas assimetricamente na moldura guardam mais que uma concepção estética do trabalho fotográfico. Elas retratam através de uma simbologia as experiências e impressões que trouxe do continente, contando uma história que ficaria pela metade se fosse apenas com palavras.

 O senso estético do africano está ligado diretamente às cores. A opção por fotos coloridas foi uma forma de retratar essa característica da cultura africana. Por todos os países que passei a noção de beleza convergia com a quantidade de cores presente nos adereços, roupas e construções. Além de retratar essa constatação que tive nas terras africanas, as cores ressaltam um olhar voltado para a beleza, não apenas para as mazelas do continente. A escolha do papel fosco para impressão também têm uma razão. Os países do norte da África têm um clima seco em sua maioria. A proximidade com o deserto do Saara e a localização geográfica determina esse clima na Guiné-Bissau e no Senegal. Em Cabo Verde, a falta de água no arquipélago determina a sequidão do solo. Por isso as fotos foscas. Uma alusão a secura do território.

Já a disposição assimétrica na moldura, um cartonado preto, faz menção ao contexto social, cultural e religioso da África, que não têm nada de simétrico e cartesiano. A pluralidade étnica, religiosa e social da África pode ser considerada, juntamente com o Brasil, uma das maiores do planeta. Retratar o continente de forma cartesiana, inclusive na apresentação das fotos, remeteria a uma idéia falsa da realidade da África, tão cheia de disparidades e contrastes.

 A aproximação fraterna com os africanos facilitou e proporcionou a oportunidade para fotografar. A limitação técnica do equipamento também acabou por se mostrar como oportunidade. Com apenas uma lente 18-55 mm, fotografar pessoas sempre me obrigava ao contato próximo, me forçando a estabelecer uma relação com o modelo. Isso proporcionou, além de algumas fotos espontâneas - dada a relação mais íntima que se estabelecia - um maior grau de informação sobre a realidade dos países em questão, bem como sobre os próprios modelos. Tirando os casos de fotos “roubadas” onde o modelo não sabia que estava sendo fotografado, a maioria das fotografias exigiu certo grau de disponibilidade de troca e construção de relação. Nos casos onde a foto foi feita sem consentimento do modelo a priori, se fazia necessário uma conversa em seguida ao momento do clique, para justificar a foto para o modelo. Tais situações, seja por intenção ou por limitação técnica, são fundamentais para o repórter fotográfico, já que não é apenas com uma imagem que se traduz um olhar. Mais do que fotografar é preciso saber o que e porque se fotografa. Minha experiência na África me trouxe mais do que 800 fotos boas e cerca de 1500 cliques. Trouxe-me a certeza de que a fotografia, assim como o jornalismo, é um meio capaz de traduzir mais do que quando nos restringimos à palavra apenas. Trouxe-me uma sensação de vida, de parte de algo, que me impeliu para o registro. E essa “força”, propulsora de criação, foi o que fez de mim, nos instantes que passei por lá, um fotógrafo.

Fiquei com a certeza de que o que determina o olhar como fotógrafo determina o ser humano em questão. Até mesmo as responsabilidades vindas das escolhas profissionais são conseqüência da carga de valores, defeitos, aptidões e sentimentos que cada um de nós tem. Nossas escolhas estão condicionadas a mais do que uma bagagem técnica e de instrumentalização. E mesmo com essa carga de subjetividade, não deixa de ser uma forma fiel e credível de interpretar o mundo, já que para se considerar um mundo completo é necessário considerar-se nele. As histórias devem ser interpretadas inserindo o narrador, não abstraindo sua existência e influência no rumo da história que se conta sob o argumento de imparcialidade, já que isso não é possível se consideramos nossa condição humana tão diversa nos aspectos que compõe nossa existência. 

Osíris Duarte - Jornalista e fotógrafo

Fatos e Fotos - A lua ... minha companheira no momento


                                                                   Finzinho do Eclipse