sábado, 23 de março de 2013

Minha casa




Bom retiro de meu agrado são os raros instantes de desilusão.
É quando o caro momento solidário da manhã,
Trás consigo o recomeço, a esperança na luz vã.

Queria eu um relicário, um apego compreensível sem filosofia.
Mas meu bom retiro é o silêncio, são os pássaros lá fora,
É o que não demora mais do que a solidão.

É o que denota paixão, sem demora na hora da paciência.
Meu bom retiro é penitência, é sonho e é perdão.

E quando o sol nascer por sobre meu telhado,
A flor no jardim ao lado florescerá aos pés do meu também.

Regadas a amor e indulgência, a fraternidade e a inteligência,
De se deleitar deitado a grama, na certeza de quem ama a verdade.

Meu bom retiro é lugar onde se preza pela certeza,
De que a beleza se faz também de terra e céu, abrigo e chão.

Osíris Duarte 08.03.13

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Estações

No meu silêncio mora um grito ensurdecedor.
E de olhos fechados vejo bem, além da miopia.
Melhor seria se eu fosse ignorante.

Sou apenas alguém que estremesse com nostalgia,

Que se embebeda de agonia, 
Quando o dia de novo nasce azul, 
Mas ainda não me trouxe de volta a cor que eu queria. 

No meu silêncio mora um gemido, um suspiro.

E mesmo ao som baixo, tenho um prurido,
Algo entre o ego e a libido, uma vontade de explodir.

Nos meus berros revolucionários mora o silêncio reflexivo da minha alma.

Calma brisa de verão...

Osíris Duarte 19.02.13

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Falso ego


De quando em vez sou apenas um escárnio de mim,
Plágio barato de quem quero ser.
E nessas horas me religo a realidade, tomo uma dose de humildade,
Pra não seguir sendo essa farsa que não disfarça o embuste que é ser sistêmico,
Mortal arrogante mortal envolto na névoa da sociedade carnal,
Sofre o contágio epidêmico de hipocrisia moral. 
Viva a teimosia dos bons, viva...

Osíris Duarte 15.02.13

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Menino dançarino



E eu dançava com pernas que já não são minhas.
Dançava ao som mudo da vida, turba enfurecida de imagens pensamento.
Eu dançava ao vento, e ainda danço.
Quer coisa mais certa que não ter ranço do tempo?
E ainda ei de conseguir pairar acima dos meus eus egocêntricos.
Ei de apagar as chagas da minha insegurança.
E ai só vai restar a lembrança do homem criança que não soube brincar com a vida.
Bandida que roubou minha inocência, mas deixou, ainda bem, minha esperança.

Osíris Duarte 16.01.13

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Amor: uma brecha se abre para um novo ciclo


A gente se confunde, e mete os pés pelas mãos. Amor não é só sentimento, amor não é querer apenas fugir da solidão. Essa "coisa" é feita de tantas coisas... Amor têm uma grande parte de respeito, amor é ser afeito a liberdade. Amar de verdade não dá espaço para autoridade, não dá brecha para a opressão. Amor, para não ser vão ardor, deve ter uma parte grande de amizade, despindo-se da vaidade e sabendo abraçar o entendimento da individualidade, dentro de cada um que vive nesse mar de coletividade. Olhar o outro com cuidado, amor não deixa de lado aquilo que pulsa alheio ao desejo no coração do ser amado. Somos tantas coisas, que restringir amor a apenas sentimento e um desperdício, um desalento. Amar é o entendimento de que somos, não apenas sou. E de que juntos derrubaremos a iniquidade, seja social ou seja na consciência de humanidade, que ainda se dá a contradição de dizer que ama, mesmo quando nos tolhe a felicidade e a liberdade de trilhar nossos próprios caminhos. Mais um ciclo se fecha, e por essa brecha enxergo a luz de um futuro amoroso de fato, onde os casais não mais se privem do fato de sermos humanos, que as famílias não mais se furtem do calor de sermos unidos, e que as sociedades não se percam mais em meio as desvirtudes de um mundo finito, sem amor.

Osíris Duarte 28.12.12

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Crônicas do Fim do Mundo



  É tão verdade que a gente não vê com os olhos, que apesar de na minha vista o fim desse ano ter mais aspectos de recomeço do que de término, muita gente vê o fim definitivo. Onde estão esses olhos que veem além das imagens, que criam, que mediam nossos sentidos?  Para aqueles que preferem considerar o fim ao invés de valorizar os recomeços, digo que o término justifica as falhas pregressas, e é fácil. Mas a ideia de recomeçar nos dá o senso de responsabilidade sobre o que passou, as consequências, e o que construímos para o futuro.

  O que têm de gente ganhando dinheiro com essa história de fim do mundo é absurdo. Se a parada fosse acabar mesmo, é de se refletir o que esse povo vai fazer com essa grana? Quem sabe apenas algumas horas pra gastar o que nunca pode seja a intenção... Essa história do calendário maia faz tempo que escuto. Tipo mais de 10 anos. Só é menos tempo do que as fábulas da branca de neve, chapeuzinho, Rapunzel e companhia na minha lembrança. O fato é que essa história tá justificando que o mundo acabe em festa! É! Já viu tanta festa programada pra um data só?! Todo mundo usando o marketing do fim do mundo pra promover sua própria "despedida" dos tempos.

  Cara, fim do mundo como? Se a gente nem mesmo consegue provar e afirmar quando ele começou?! O que tem fim, teve começo... Não é? Ainda creio que é tudo uma questão de pretensão do ser humano, que se acha ao ponto de querer traçar em tortos contos de fadas-campanhas-de-marketing, os destinos do universo. Uma frase que vi em uma rede social dia desses resume bem o que penso disso: O que me preocupa não é o mundo acabar em 2012, mas sim ele continuar como está em 2013. Pra você que subiu a montanha, se achando o escolhido, cuidado em! Porque quem fez a escolha foi você, e mesmo no alto da Minas Gerais dá terremoto, cai uma árvore, dá uma enchente e morre quem tem que morrer meus caros. Se o critério de escolha meritocrática de Deus for geográfico, que Deus justo é esse alardeado por quem se diz espiritualizado?!

 Pensem: e se não acabar? Voltamos para a mesma sociedade de merda, para a mesma inércia social, e nos contentamos em esperar pela próxima profecia, para que Deus venha a Terra fazer a justiça que nós não fomos capazes de fazer... E assim o barco segue em busca de novos cantos da seria para justificar os desvios de caráter.

   Osíris Duarte 20.12.12

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A saúde em Santa Catarina


Por Elaine Tavares - Jornalista

As mulheres falavam alto, porque, afinal, o ônibus é espaço pedagógico. Discutiam a greve dos trabalhadores da  saúde que, em Santa Catarina, já passa dos 30 dias. No dia anterior trabalhadores do transporte público e os bancários haviam feito uma paralisação em apoio aos grevistas, provocando horas de filas e ansiedade, tendo o apoio de estudantes, sindicalistas e militantes sociais. E, no dia seguinte, a imprensa catarinense tocava o pau em todo mundo, alegando que o "pobre" governador Raimundo Colombo, não tinha como dar o aumento "absurdo" que os trabalhadores pediam. Não bastasse isso, ainda vinham os "baderneiros" dos motoristas e cobradores fazer confusão.
O tema era esse. As mulheres discutiam a eterna capacidade da imprensa de distorcer os fatos. Ao longo da greve, passa para a população a ideia de que o "absurdo" é os trabalhadores quererem aumento, e não o fato de um governo deixar a população sem atendimento de saúde simplesmente porque não quer se render à luta. Algumas pessoas viravam o rosto com um olhar fulminante até as mulheres, numa clara atitude de discordância. Certamente acreditavam na imprensa e nas inverdades que cria.
Mas, no banco da frente, uma outra mulher espiava com o rabo do olho, até que não se conteve. "As pessoas não sabem o que a gente passa". Explicou que era trabalhadora da saúde, aposentada há alguns anos. "O que faz os trabalhadores entrarem em greve agora é que foi tirada do salário a hora-plantão, E é isso que dá alguma dignidade ao que a gente ganha. Sem isso, o meu salário, por exemplo, fica 800 reais. Como é que uma família vai se sustentar assim?".
Então, enquanto partilhavam o trajeto, as mulheres foram ouvindo aquela cuidadora de gente. Ela contou que a maioria dos trabalhadores da saúde é obrigada a ter dois e até três empregos para  garantir um salário digno. E que isso se reflete no trabalho. "Imagine a gente passar duas, três noites sem  dormir, nos plantões. Quanto erros não são cometidos? O perigo que isso é? Não porque a gente seja incompetente, é o cansaço. Fico pensando porque as pessoas não se indignam com isso. Amanhã ou depois elas vão parar num hospital e vão ser cuidadas por nós, trabalhadores esgotados, cansados, aturdidos. Isso sim deveria ser discutido".
A greve na saúde é de fato um transtorno e uma fonte de dor. Os empobrecidos, que sofrem tanto no dia-a-dia, sem médico, sem atendimento digno, sem acesso aos equipamentos modernos de diagnósticos, sem opções de tratamento nas cidades do interior, submetidos a ambulancioterapia, acabam enfrentando mais um obstáculo. Mas, se formos observar bem, nada muito diferente do cotidiano, o qual só é vencido por conta desses mesmos trabalhadores, alguns deles verdadeiros heróis, que conseguem tirar leite de pedra. 
O governador Raimundo Colombo, que não precisa de atendimento público, prefere ignorar o grito dos trabalhadores. Faz queda de braço e se mantém inflexível. A imprensa reproduz os argumentos dizendo que o Estado não tem condições de dar a gratificação que substituiria a hora-plantão. Observem que a reivindicação dos trabalhadores ainda é modesta: apenas uma gratificação, que viria para substituir a hora-plantão, diminuída ou retirada. Ainda assim, o governador manda corta salários, humilha, recebe com gás de pimenta. Ora, não tem condições de dar a gratificação? Segundo dados do governo, no Portal da Transparência, só em recursos próprios o estado arrecada por mês 12 milhões para a saúde, gastando apenas 1,5 com pessoal. Do total do orçamento anual a saúde representa 15% de gasto. Que tal então cortar os comissionados que têm salários variando de 5 a 12 mil? Ou a publicidade, que consome 110 milhões ao ano? Dinheiro o estado tem, o fato que não quer investir na saúde. É, porque salário é investimento.
A questão é simples. Um trabalhador como o da saúde, que atua diretamente na sustentação da vida, precisa estar bem pago e bem descansado. O certo seria ter um único emprego, descansar o suficiente para poder cuidar bem de si e dos outros. Mas, o que se vê é um trabalhador desesperado, esgotado pelo excesso de trabalho, tendo de atuar com uma estrutura sucateada, um sistema desmontado, equilibrando-se no milagre. É esse o que cuida do doente, que pode ser o teu filho ou tua mãe. Aí está o ponto que deveria ser discutido pela imprensa.
O ódio da população deveria voltar-se para isso. Para o descaso com a saúde pública, com os trabalhadores, com a estrutura dos postos e dos hospitais. Mas, a maioria das gentes prefere odiar o trabalhador que luta. E mais, quando um trabalhador, esgotado pela exploração, comete um erro que custa a vida de alguém, todos os holofotes se voltam contra ele, apontado como o monstro, o assassino, o irresponsável. Lembram da enfermeira que injetou café na veia de uma pessoa? Pois é. Essa é crucificada! Não há nenhum dedo apontando para o Estado, para o governador, o prefeito ou para o diretor do hospital. A culpa é sempre individual, e do mais fraco.
O fato é que o desmonte da saúde é responsabilidade de quem governa, de quem gere os recursos, de quem decide para onde vai cada centavo. A negativa da gratificação aos trabalhadores é só uma ponta do problema. Há que pagar os trabalhadores, garantir a sua dignidade, há que garantir atendimento à população nos postos de saúde, nos hospitais, há que modernizar a estrutura, garantir os melhores equipamentos. E as pessoas também precisam se mobilizar para que isso aconteça de fato. Não basta choramingar. Há que lutar. Mas, para isso seria necessária uma articulação estadual e nacional, para além do sindical, que pudesse avançar para uma mudança radical do Estado brasileiro. Esse é o desafio da esquerda nacional. Ser capaz de gestar no meio das gentes o desejo de um mundo outro, que não esse, no qual os direitos precisam ser diuturnamente lembrados, na esgrima com o poder. Resta saber se isso é possível num país onde as lideranças sindicais e sociais estão - na maioria - domesticadas  e cooptadas.