quarta-feira, 17 de julho de 2013

O que ganhamos com o 11 de Julho?


  Apesar de não serem mais de 50 mil, como foi na maior passeata que houve em Florianópolis durante as manifestações do último mês, as mais de 5 mil pessoas presentes na passeata do dia 11 de julho, intitulado Dia de Luta, Greves e Mobilizações, convocado pelas centrais sindicais, teve uma representatividade estratégica importante para os seguimentos da sociedade civil organizada no Brasil e na Capital Catarinense. 

  Funcionários públicos, COMCAP, Correios, eletricitários, bancários, policiais civis, trabalhadores da saúde, professores, estudantes, Movimento Passe Livre, MST... A lista de movimentos e categorias organizadas era grande, mesmo quando a concentração em frente a Assembleia Legislativa de Santa Catarina ainda não apontava para o tamanho da passeata que se formaria. Ao longo da caminhada, que passou pelos principais centros administrativos do Estado e do município, como prefeitura, secretarias de educação e saúde e TRT, e que acabou no Terminal municipal do centro da cidade, trabalhadores foram aderindo, do comércio, das administrações públicas... 

  Em meio ao clima de protestos que o país tem vivenciado, ver representantes de diversos seguimentos, classes e movimentos sociais, muitos deles rostos conhecidos de quem milita, de quem está nas ruas a bem mais tempo do que um princípio de inverno, misturados com outros, apenas ilustres desconhecidos, mas que se ocupam do papel de ocupar, de se ocupar com a culpa de quem não se contenta com o comodismo, da culpa do par, demonstra que ainda à margem para se pensar em unidade na militância civil brasileira. 


  O que se pode notar é que ainda há um abismo grande a se ultrapassar no que diz respeito a nossa noção de cidadania na nossa sociedade. Demonstrações de agressividade, intolerância e, por isso, ignorância, por parte de alguns transeuntes, ainda embebedados pelos gritos de "sem partido, sem bandeira ou viva as causas que nem eu mesmo sei quais são", que ecoaram em muitas manifestações no país, serviram para reforçar o quanto uma parcela significativa da sociedade não entende o que é liberdade, direito e democracia. 

  Acostumados a reproduzir as opiniões que recebem mastigadas da grande mídia, sem dar chance para ouvir, olhar ou mesmo considerar o outro lado, muitos cidadãos, inclusive integrantes da camada de trabalhadores no Brasil, não consideram os trabalhadores cidadãos, não entendem organizações civis, como Sindicatos, fora do que entendem por partidos políticos, e não valorizam a liberdade de expressão e manifestação, o direito civil amplo e a responsabilidade civil de lutar por uma sociedade melhor. De fato muitos trabalhadores não se enxergam como tal. Não no que diz respeito a quantidade e a qualidade do exercício profissional, do trabalho, mas sim como classe social. Esse equívoco classista gera distorções de comportamento social que afastam muitos da coletividade da classe em que está na busca pela ascensão de classe apenas.
   
      
  Noticiar apenas os números da passeata e compara-los com os demais números de outras mobilizações, colocando as falas já conhecidas dos dirigentes sindicais pontuadas, seria reproduzir o que a grande mídia faz, sem realmente destacar o que há de substancial na mobilização, seja pela demonstração de vida na sociedade civil organizada de Florianópolis, seja pela demonstração de unidade que as categorias deram. Reforçar o fato de que o problema do professor é problema do enfermeiro, que é problema do bancário, que é problema do funcionário público, que é problema do lixeiro, e assim por diante, é um ganho importante na construção da ideia de coletividade e cidadania plena no nosso país. Constatar a forma como a mídia aborda as mobilizações da classe trabalhadora em comparação com mobilizações mais difusas, oriundas de outros projetos de luta, que muitas vezes não confrontam o poder e a opressão do mundo moderno, também é um ganho no psicológico de muitos militantes.  


  Para a categoria bancária fica a lição, mais uma vez, de que sem luta, organização e unidade não se mantém, muito menos se conquista direitos. Nenhum dos nossos direitos civis são concessões do poder. Todos eles foram conquistados ao longo da história, na base da luta e ao custo de mortes e sofrimento de muitos cidadãos de bem. A categoria bancária é, ainda, uma das maiores e mais bem organizadas categorias de trabalhadores no país. A muito custo se construiu a estrutura e organização dos bancários e, se não nos apropriarmos das ruas e dos nossos direitos, eles serão expropriados, quinhão por quinhão, enquanto nos conformamos e ser apenas história, não realidade.      

Texto e fotos - Osíris Duarte




quarta-feira, 26 de junho de 2013

terça-feira, 18 de junho de 2013

A mídia, o medo e os paralelepípedos



  Bastou um momento, um ensaio da possibilidade, para o medo se instalar naqueles que nunca imaginaram que isso poderia acontecer. O medo, o mesmo sentimento útil historicamente na relação da sociedade de classes brasileira, mudou de lugar, mesmo que por um lampejo, mesmo que ainda precisando ganhar mais corpo. A reflexão sobre como as ideias ganham corpo, mente e alma no nosso país, passam muito pelos olhos daqueles habituados ao status quo, a dita ordem. Porque foi nos olhos de colegas jornalistas, nos olhos de analistas e políticos, que vi a luz no fim do túnel, mais uma vez. Foi no medo que vi nos olhos deles.
  Assistindo ontem o Jornal Nacional, como exercício didático de análise semiótica, monitorando discursos, fui testemunha do ridículo a que se dobrou a emissora, que através do semblante do seu âncora não se furtou em demonstrar o tamanho da contrariedade em dar cobertura para as manifestações em todo o país, reunindo milhares de pessoas. Não podendo amplamente alimentar o ufanismo da Copa das Confederações, e tendo que dar destaque as manifestações para vender a imagem de que faz jornalismo, e é imparcial, o JN, principal telejornal do jornalismo da Globo, correu e corre atrás, assim como o departamento de jornalismo da emissora, para minimizar o impacto da insatisfação gerada pelo reacionarismo das declarações e abordagem da emissora na cobertura das manifestações.
  A mudança de termos, adjetivos, como vândalos para manifestantes, é apenas uma das estratégias adotadas pelas editorias para capitalizar o prejuízo de imagem e credibilidade. Outra e o pretenso fazer jornalístico agora alardeado por eles, que se omitiram até então com relação a buscar entrevistas com os manifestantes, a não exacerbar o vandalismo em detrimento da importância das manifestações e das bandeiras defendidas. O direcionamento que um discurso têm, mesmo travestido de jornalismo, não está somente nas palavras contidas nele, mas principalmente no tom e na abordagem que se dá. Existem especialistas para corroborar com quase tudo, desde que corresponda ao que defende a tese argumentada. Não existem verdade absolutas, mas escolhas de verdade. Mas o pior é ver que além de tentar minimizar prejuízos, a emissora insiste, sutilmente, em reforçar seu posicionamento político, mesmo o escondendo em mentiras que são, de fato, o  motor da máquina da Globo. O exemplo são as afirmativas de repórteres, dizendo que "as manifestações são motivadas pelo aumento das tarifas e pelo custo de vida no país". MENTIRA! As tarifas sim, mas essa afirmação, cunhada pela repórter, é política, tentando pesar no governo federal em algo que eles mesmos tem responsabilidade pela manutenção: ignorância. Acho que qualquer político no Brasil é farinha do mesmo saco, porque se sujeita ao jogo do sistema para disputar poder. Nada de mobilizar o povo, nada de luta por direitos, é poder e ponto. Quem entra no  jogo, por mais que tenha o tal discurso de mudar de dentro, de que se eu, que sou honesto e bonzinho, não estiver lá, vamos deixar espaço para quem não presta é balela de quem quer bebesse, mamar na teta. O fato é que quem entra nessa ou está disposto a se corromper, ou não terá força para resistir, esse é o jogo, e a máquina de dentro é bem melhor guardada do que por fora.
O fato é que o peso das manifestações se fez sentir numa parcela da sociedade que vive, e sempre viveu, a falsa sensação de segurança que corroborar com quem ascende ao poder oferece, mesmo com esse poder sendo adquirido na base da opressão e da mentira. O peso do que tem acontecido no Brasil não é político partidário nem mesmo o que está em jogo é quem será o próximo presidente do país. O que está em destaque, o que está em jogo é algo chamado senso de cidadania, de pertencimento. Nada muda para uma coletividade que não se reconhece como tal. E não são as bandeiras dos partidos ou grupos que fazem esse senso de coletivo, pelo contrário. Quem fez esse senso brotar foi a rua, foi a retomada do que é nosso, a apropriação. Para um povo que nunca se sentiu dono desse país, pelas inúmeras questões históricas que pesam, a rua é o melhor palco de retomada de posse, de construção de sentido de coletividade.

Osíris Duarte - Jornalista
   



quarta-feira, 12 de junho de 2013

Por mais que seja ingênuo



O que antes fosse, já era. Brumas turvam o campo... Piedade de mim, dizia.
Se outrora visse o amanhecer na alvorada desse amanhã, nada me diria.
Seja o sol que exiges que brilhe sobre seu dia.

E se agora choras, seja pela solidão ou seja por orgulho, chores.
A maior misericórdia é deixar a discórdia de lado, e saber sofrer se convêm.
Seja a luz da estrela que guia seus passos.

Quem lamenta não tem tempo pra se erguer.
Achas que a tormenta só sopra pra você? Ingênuo...
O que importa quem escuta atrás da porta, se não ao orgulho que corta vossa vontade.

Dor maior é viver a fantasia de quem cria o próprio conto verdade.
Sofrer mesmo é viver achando que não está só quando na realidade gritas só.
Qual é a liberdade que preferes, a que fere todo o dia, ou a que responsabiliza-te pelos curativos?

Qual é a força de vossa fé.

Osíris Duarte 12.06.13

segunda-feira, 13 de maio de 2013

E quando não é dia das mães? Ou dos pais? Ou dos filhos...



  Passada a ânsia por consumo e os apelos do comércio e da mídia com relação ao dia das mães, me sinto mais a vontade para escrever sobre o tema. Não é ranço, radicalismo, nem orgulho, é só uma escolha de cunho didático, buscando uma reflexão em ânimos menos exacerbados pelas influências do período. Também por uma razão simples, uma pergunta fácil de formular: E quando não é dia das mães, afinal? As datas comemorativas, na verdade, não servem ao propósito de lembrança, comemoração por fato importante, militância... Elas servem muito mais ao sistema, ao comércio, a política, do que as pessoas. Para falar sobre mães hoje em dia não é possível descolar a abordagem de uma discussão sobre papéis, gênero, família e sociedade. Para além do amor que o filho sente pela figura materna, há um debate mais amplo, mais necessário do que lembrar como mãe é amada e importante.
  Para manter o mínimo de clichê, vou rasgar uma ceda aqui para minha mãe, mas ela é justificável no contexto da minha abordagem. Dona Cibele foi mãe nos anos 1980. Eu nasci em 1981, seu primeiro filho. Já formada em ciências da computação, ela remou contra a maré da época e da cultura nordestina de meu avô, sertanejo e cabra macho. A contra gosto dele ela estudou fora de João Pessoa, em Campina Grande, na serra paraibana. A contra gosto do pai e do marido, ela embarcou para São Paulo, em busca de algum sucesso na profissão, já que na Paraíba emprego faltou por quase 9 anos depois de formada. Lá, conquistou trabalho, trouxe o marido e os filhos e estruturou a vida financeira e profissional. Educou a mim e meu irmão com o máximo de acesso a informação e educação formal possível, assim como nos criou com valores morais firmes, éticos e solidários. Minha mãe representa uma mulher que vem se desenhando a décadas, na busca por igualdade de direitos e justiça social, quebrando tabus e preconceitos e, inclusive, enfrentando o machismo contido nela e na sociedade, tanto em homens como em mulheres.
  Historicamente a mulher ocupou o papel de cuidadora da sociedade. Sempre coube a elas os cuidados com os filhos, marido, velhos, enfermos, crianças e toda sorte de desvalidos e fragilizados. Características e virtudes atribuídas a feminilidade, como zelo, carinho e paciência, serviram e servem como argumento para o papel da mulher na sociedade. Os atributos físicos foram determinantes para a definição de papéis nas sociedades humanas ao longo da história. A força física do homem lhe conferiu uma posição de dominância durante nossa existência pregressa, lhe reservando os postos de controle e os ditames das regras sociais. A mulher, depreciada nessa relação, desenvolveu também instrumentos humanos para sobrevivência e disputa por poder na coletividade. Ao mesmo tempo que a necessidade lhe ensinou a se valer da posição de objeto de desejo, elas também eram as principais responsáveis pela transmissão de valores a prole, presas num ciclo de subserviência a sistema imposto pelo homens, e subversão exercida pela necessidade de também exercer poder na sociedade, mesmo que cerceado e vigiado pelos homens.
  As conquistas das mulheres ao longo da história são fruto dos instrumentos de sobrevivência adotados por elas nessa luta, solapando e galgando espaços na sociedade machista instituída. As grandes guerras, bem como a revolução industrial e o capitalismo tem seus papéis nas conquistas do feminismo, mas essencialmente, a necessidade de pluralismo e diversidade na construção social são determinantes na abertura de espaços na busca por igualdade civil e direitos humanos. Para mim, é o irrevogável curso da evolução. Ao mesmo tempo em que as mulheres galgaram seus espaços, - que ainda precisa de avanços até hoje - aos homens foi imposta a necessidade de adequação a essa nova mulher. O processo de diluir a visão fragmentada e compartimentada que tempo de coletividade passa pelos conflitos gerados por essa pluralidade, formando nossa caráter e nossos valores através da energia gerada pelos embates, contradições e reflexões conscientes. Para manter uma relação social, que preserve o afetivo, o psicológico e o espiritual, os homens tiveram, e ainda tem, que dar um passo moral na sua relação com o feminino e com a mulher na sociedade. Eu sou filho de uma geração que começou a desfrutar de uma sociedade, ainda que longe do ideal, mais equilibrada, mas diversa e, portanto, mas propensa a justiça. Sob esse ponto de vista nada mais normal que equidade de direitos para combater a ignorância, mãe do preconceito. Sendo assim, o entendimento de mãe, em uma sociedade onde novos valores pesam sobre a construção dos indivíduos, onde o cenário e os personagens mudaram de roupa, comportamento e papéis, passa muito mais pelo entendimento de amor ao próximo do que de personagem social. Mesmo com tantas mudanças comportamentais e de rotina de vida, o que define mãe na essência é a imposição prática de amor ao próximo, mesmo que na prática isso nem sempre se dê. Quantas mãe modernas tem a mesma disposição de cuidar e educar seus filhos? Os métodos mudaram de acordo com as mudanças do tempo e da sociedade? E se não mudaram, se adéquam aos dias de hoje? O que representa a figura da mãe na família moderna? Por mais que o modelo continue com bases sólidas, de cuidado e carinho, muitas mães hoje delegam a formação de seus filhos a sociedade e suas instituições, seja a escola, o estado ou a própria sociedade. "A vida cria", dizem ainda por ai. É de se pensar...
   Eu tenho uma família com a cara dos tempos novos. Somos uma mãe, um padrasto, um pai e uma madrasta, um irmã adotada, dois irmão, um filho da mãe outro do pai, fora os agregados que se somam ao núcleo base da minha família. O modelo de família, católico, baseado no conceito arcaico de sobrevivência da espécie, serve para a manutenção e permanência de valores que dizem respeito a uma época que não é a nossa. O mundo já tem gente suficiente para se preocupar com povoar o planeta como Adão e Eva. O questionamento aqui não é contra a responsabilidade que os pais devem ter para com seus filhos, mas sim na saúde mental e social necessária a nossa realidade, que mesmo com o formato de família: papai, mamãe e filhinho, não garante felicidade, amor e respeito. Valores não estão atrelados a orientação sexual, escolha religiosa ou política, até porque para serem valores, devem ser coerentes, de discurso para atitudes, e esse tipo de escolha não define coerência.      
  O que define mãe é uma lembrança. Quando chorava por algo que não tinha, e queria, e ela me deixou chorar. Quando me deu aquilo que eu não queria, mas precisava. A lembrança da festinha de escola, e ela sorrindo na primeira fila. O gosto de ficar velho, e ter ela fazendo o café quando estou na casa dela, arrumando minha cama, cuidando de mim mesmo quando já não é mais necessário. O que define mãe não é o papel social, ou moral ou afetivo. O que define mãe é o amor pela humanidade, que pode vir através da maternidade ou da consciência sobre coletividade. Mãe é a acepção do amor ao próximo. É a imposição do universo pela aceitação. Assim, todos os dias, na minha visão, são delas, as mães, de verdade ou postiças, mas as presentes, as atuantes. Aquelas que estão lá, dia após dia, nos amando e zelando por nós.  Se for pensar com calma, talvez o único dia que não seja tão delas, seja o da data comemorativa. Pode ser dia das mãe para o comércio ou para a sociedade, mas o dia delas mesmo é todo dia.                  
       

terça-feira, 23 de abril de 2013

Sem meias atitudes



Mas é que quando beijo, é pra valer.
Um ensejo de nada, não rende beijo.
É que meu desejo não faz doer.
Pra quem sabe o que almejo, dar valor ao beijo
É só questão de saber o que querer.

Meu abraço é de verdade, faz alarde.
De deixar roxo, apertado, acarinhado.
É porque não tenho braços pra quem não tem abraço
É só questão de saber o que fazer.

Osíris Duarte 22.04.13

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Omitindo



Tá entalado. Aqui, na garganta, sabe... Ando é bem ressabiado com os abismos da ignorância. O artigo de luxo chamado coerência anda em escassez. E a gente recebe críticas negativas por tentar ser politicamente correto... Talvez porque na nossa realidade tupiniquim haja um antagonismo por demais forte entre as duas palavras. Tá cheio de gente "inteligente" por ai que faz questão de justificar suas palavras-conceitos-reforços com a dita liberdade. Liberdade sem se responsabilizar e fáaacil... Então ainda tenho que ouvir discursos do tipo: Tem que matar esse bandido, esse fodido, esse viado, esse preto, esse crente, esse povo... Santos cristãos batman! As vezes acho que o analfabetismo crítico é pior do que o prático. Conviver com a leviandade de compartilhamentos fake que servem os propósitos ideológicos, morais e de poder alheio virou status quo. Tenho me preservado de algumas polêmicas, porque já me basta o asco diário. Então, em meio ao melindre de muitos com qualquer declaração divergentes, pensei mesmo em vir aqui só pra reforçar algo pra mim importante: Tirem sua ignorância do meu caminho que eu quero passar com a realidade.

Osíris Duarte 10.04.13