Das
tantas coisas pueris, que por um triz, ou mais, passam querendo nos
atingir, nos mentir, nos omitir, resisto em mim, persisto enfim nas
coisas de coração. E se datas servem pra marcar, lembrar e sorrir,
guardo então o que sobra de mais caro e terno, o que sobra pro verão e
para o inverno, sem me sentir com sobras. Lembro-me que deixar o que
tenho de melhor fluir é questão de sobrevivência na vida,
de não sentir perdida a esperança nas pessoas, no amor, nas coisas
boas, que se planta e colhe, que voa, e deixa mole a dureza desses
espíritos afins. Então, hoje, sem remorso, pensando que posso sempre,
deixo quente os sentimentos, elevo bem os pensamentos e não me
envergonho mais de ser humano, de ser ciclano ou fulano, de ser sensível
e romântico, se preciso for, ser preciso é, nem sempre... Basta a fé
família... Basta o pé na trilha e a certeza de que não há
arrependimentos quando existe um alento nos olhos dos que gosto, na
caridade dos que amam e na clareza que dá a liberdade do humano feliz, a
vera, de fato. Por aqui, e onde alcançam meus pensamentos, amor é mato e
assim será no que depender de mim.
Luz na paz de nós, hoje, amanhã e sempre.
Osíris Duarte
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Estrada
Nas tênues curvas, turvas do meu par, encontrava aconchego de lar, tão
familiar... E aquela nesga de luz vesga, pela fresta da janela meio aberta, ou
meio fechada, passava o calor da tarde acesa, quente como a respiração dela no
meu peito. Respeito dias assim. É como capim para o gado, como um agrado enfim,
depois do dia de trabalho.
Paixões têm fórmulas, às vezes uma pitada de droga, quase sempre um
monte de tesão, quase nunca uma dose razoável de razão. Mesmo assim, sei que
não demora lá fora a chuva, grossa, curva perigosa, feita para se fazer
devagar... Igual rolar sobre as nádegas dela, enquanto o dia tardava e a
madrugada nos cobrava o sono, o cio e o sonho. Aquele ar viciado deixava excitado
meu gosto por dores. Desejo cores mais claras por de trás da cortina, manchada.
Tenho um gosto por curvas sinuosas e tardes de amor que viram dias. Assim como
tenho gosto pela falta de tempo verbal para descrever a vida, tão atemporal.
Paixões têm fórmulas. Mórbidas expectativas de vingança na negação. Tórridas
partidas e chegadas no coração. Fósforo que queima a mão quando deixado queimar
até o fim, até apagar enfim. As fórmulas têm paixão. E mesmo quando na meia
luz, depois de nus, com infindas respirações, formulamos em conjunto que junto
é melhor com carinho, sem desviar os caminhos de ninguém. Nas sinuosas ou nas
tênues, suas curvas temem as minhas quando vamos além dessa noção, sem noção.
Não falo de amor porque está implícito em cada suplício de saudade, em cada
resquício de verdade nas paixões. Não falo daquilo tão caro que calo. Está
explícito em cada solstício do viver. Que são dias de paixão sem vidas sem amor?
São estradas sinuosas, de curvas perigosas, onde gozas sem saber que prosa irá
dizer e se há lar para não se perder. Naquela infinda sensação, fiquei com o
amor.
Ela me deu um beijo meio termo. Meio na boca meio na bochecha. Meio te
amo meio te odeio. Mesmo com o cheiro do café na cozinha, ela tinha nos olhos
um ar de sozinha, me deixa. Foi à deixa. Não há estradas que não devem ser
percorridas, perdida só pode ser a ignorância, não a partida. É como pegar
carona, deitar em lona e ter prazer de vida. Estradas são meios, não fins,
mesmo que no fim, quase às vezes, me vejo no meio delas.
Osíris Duarte
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
João que podia ser Maria, que podia ser Pedro...
João era preto, desrespeito da ausência de cor. E aquilo que João tem no peito, bate curto, apertado e estreito, quando no leito João deita pálido, sem cor. João morreu no beco, escuro segredo no muro branco do bar. Ele não viu o mar, nem o azul do amor costeiro, João era um estrangeiro no próprio lar de dor. Ele era direito, trabalhador de respeito, na calçada inspirava medo, em casa esplendor. João podia ser José, Maria ou Pedro, ele corre a pista atrás de um beijo, doce afago dos desejos. João bebia cachaça no sábado, café no domingo e chuva na segunda. Ele senta a bunda no coletivo, a mesma bunda que consigo sente, que no coletivo senta. Ele tenta, tentava... João arrastava as solas brancas do pé negro, na face escura o sorriso luz, sem segredo, andava a esmo na vida cinza. João morreu no beco, nas mãos o pão, o leite e o medo, enquanto o mundo lhe dizia preto não é cor, é ausência de cor e saiba, de cór, isso, morre bem quisto pelo preconceito, mais um preto, por favor.
Osíris Duarte 20.11.13
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Sobre abóboras, bruxas e sacis
Por Osíris Duarte
Quando eu era criança - e olha que não faz tanto tempo em! - Natal era uma festa cristã, assim como a Páscoa. Festa junina, ou de São João, nome mais comum para nordestinos como eu, era expressão cultural de valor e, o folclore brasileiro, parte integrante das manifestações culturais na minha época, era bem presente no meu imaginário. Cresci lendo livros sobre Curupiras, Sacis e mulas sem cabeças, juntamente com aqueles deliciosos livros da Coleção Vagalume, como A Ilha Perdida, O escaravelho do Diabo... Todos redigidos por talentosos escritores brasileiros, voltados para o público infanto-juvenil. Mas cada vez mais percebo mudanças, que nem sempre me agradam, no consumo de conteúdo artístico, cultural e literário do jovem brasileiro.
Para o educador, pedagogo, Paulo Freire, sociedades colonizadas ou invadidas culturalmente são sociedades alienadas. De fato, o que temos historicamente no Brasil é a manutenção de um processo colonial, com finalidade de manter na inércia o processo emancipatório da sociedade e do povo brasileiro, na busca pelo reforço e construção de valores coerentes com as origens étnicas e culturais da nossa sociedade. A forma predatória estabelecida pela colonização em terras tupiniquins – exploração econômica, escravidão, concentração das terras, mandonismos, falta de liberdade de expressão e de livre iniciativa – deixou uma herança nefasta na construção de valores dentro de nossa sociedade.
A falta de participação popular na vida pública do país ao longo da história, mantendo governantes em uma esfera de poder externo ao povo, os senhores das terras, os fiscais da Coroa, nobres membros da Coroa, etc, criou uma consciência hospedeira da opressão, consciência habituada a seguir leis e preceitos de outros em vez de consciência livre e criadora, necessária para um regime democrático. Mas, mesmo com a criação do Estado Democrático de Direito no Brasil, nunca houve o desejo dos governantes, sejam os colonizadores do passado ou os atuais, de estabelecerem aqui uma Nação e, “importar” as soluções, os modelos, inclusive valores, através da música, manifestações culturais, bens de consumo e modelos políticos seria uma solução.
Levar e conta o que nos define como povo é um processo de libertação e construção de unidade. Aquilo que nos define como indivíduo está diretamente vinculado ao que nos define como cidadãos e como povo. Problemas que afligem outros povos passam a ser nosso problema devido à reprodução de expressões culturais e sociais. Ao mesmo tempo virtudes e benefícios advindos de nossa terra e nosso povo vão sendo enterrados. O que me assusta, é que isso denota uma tendência para a entrega a escravidão, uma preguiça de ser brasileiro, de dar valor ao que nos definiria como Nação livre e soberana. De fato, os gringos valorizam nossa cultura muito mais que nós. Talvez seja por isso que valorizamos a deles: certa necessidade de autodepreciação, uma armadilha que dá a falsa segurança de que podemos nos eximir da responsabilidade de cuidar uns dos outros e de nossa terra.
Quando pirralho, criança de nariz escorrido, eu brincava de índio, soltava pipa, e acreditava em estórias. E se hoje eu sei o valor de um indígena, da capoeira, do saci, da mata atlântica e da Amazônia... Se eu sei hoje o valor da luta das minorias sociais no país, sei o que é Brasil na carne e no sangue, é por causa de Machado de Assis, folclore, São João, forró, carnaval de rua, com esguicho de água e fantasia, bois e milho. Se hoje eu sou brasileiro, é porque fui privilegiado com a oportunidade de sê-lo, coisa que parece cada vez mais escassa.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
A verve
A verve que fere as palavras lavra o campo vasto de intenções do espírito. E se por acaso não fizer boa colheita comigo, não há pesares que amorteçam certa frustração. Em verdade penso que não há má colheita, mas sim certa feita de imprecisões. O que há de mal é quando não há o que complementa a vontade lenta de juntar o que lhe foi dado, não deixando de lado o lado que cabe a cada corte, a cada responsabilidade de morte, a cada sonho em vão... Não coloco de escanteio as falhas minhas. Se o fizesse seria um ignorante feliz, que caminha e malha a si quando não cabe mais usar argumentos. Mas também não desejo sorte, fico no aguardo do norte depois da tempestade que ainda grita nos meus ouvidos. Não perdi o tom, nem sou um embuste, mas é que nessa coisa de viver, há quem escute suas angústias e há que finja que não lhe cabe ser humano. De fato eu estou farto de solicitudes. Elas iludem quando o cada dia se torna luta solitária, de um pária, para aqueles que entendem como lamúria aquilo tão caro pra cada um. Minha realidade aturde meu senso, urge em consensos, mas se perde em meio as calhas, e escorre com a chuva. A verve que fere as palavras lavra o campo vasto de pretensões e sentidos. E comigo arde a vontade de poder ser maior que minhas angústias, ao ponto de fazer pesar menos as angústias alheias em mim.
Osíris Duarte
Osíris Duarte
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Quisá
Um dia ainda me descobrirei maior do que minhas pequenas angústias. Ainda serei mais do que um homem. Serei além da fome, pra lá do desejo, serei mais do que apenas um pedaço de emoção. Serei por inteiro. E o certeiro amor no fim dessa luta contra ilusão, espero.
Osíris Duarte 20.08.13
Osíris Duarte 20.08.13
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